“Problemas no inferno parecem compreensíveis — sabemos por que as pessoas estão protestando na Grécia ou na Espanha —, mas por que é que há problemas no paraíso, em países prósperos ou que, ao menos, passam por um período de rápido desenvolvimento, como a Turquia, a Suécia e o Brasil?”
Slavoj Žižek
O PSOL foi vanguarda em enfrentar o fenômeno do neofascismo. Lutamos contra o golpe à presidente Dilma e na campanha contra a prisão de Lula. Para entender como passamos de problemas no paraíso, como sentenciou Žižek, para as portas do inferno, com Bolsonaro, é preciso que nos debrucemos sobre três temas: (1) o significado e balanço de 2013; (2) os limites do progressismo; (3) o neofascismo como resposta do capital em crise: um regime que se apoia na nova e sofisticada ação colonizadora do imperialismo em decadência, as big techs.
2013, o ano que não terminou
Em meados daquele ano, eu estava esperando uma reunião em São Paulo em que discutiríamos a mobilização que o Movimento Passe Livre estava convocando para a capital paulista. Um amigo que acompanhava a adesão ao evento nas redes começou a nos informar: “já são mais de 5 mil pessoas que comparecerão”. Em seguida: já são 8 mil, 10 mil, 30 mil. Quando terminamos a reunião, já eram mais de 100 mil. Assim começavam as Jornadas de Junho.
O que aconteceu depois todos acompanhamos. Mas a interpretação dos fatos ocorridos não foi unívoca. A maior parte dos dirigentes petistas viu nas mobilizações uma grande articulação da direita. Ficaram famosas as teses das “revoluções coloridas”, ou seja, de que o imperialismo teria apoiado as mobilizações para alcançar seus objetivos. Mas não foi essa a gênese do movimento no Brasil. Aqui, as Jornadas de 2013 nasceram de demandas reais e concretas.
A forte repressão por parte dos governos ajudou a massificar as manifestações. No decorrer do processo, a condução dos atos foi disputada por setores conservadores no interior do movimento. O erro fundamental, contudo, foi o abandono das ruas e mobilizações. Foi esquecer a luta de classes em favor dos acordos “por cima”, que funcionaram muito bem em períodos de bonança, mas se mostraram desastrosas para enfrentar a crise. Greves por reivindicações justas de trabalhadores se transformaram em “inimigas” da esquerda no governo, acusadas de fazer “onda” para a direita golpista.
Mas o que foram aquelas mobilizações (Primavera Árabe, Indignados na Espanha, Occupy Wall Street etc.) iniciadas em 2011 e que, no Brasil, se iniciaram dois anos depois? Foram tempos de uma primeira grande resposta dos povos oprimidos no mundo contra os efeitos do neoliberalismo, da crise estrutural capitalista que veio da periferia para o centro e chegou ao seu coração, o imperialismo norte-americano. Foi uma reação às grandes transformações no mundo do trabalho, apoiada nas novas formas de comunicação. Teve como traços fundamentais a ausência de direção nacional e, sobretudo, internacional. Respondiam todas a questões muito concretas, mas expressavam um desconforto, uma indignação, com os rumos em geral impostos pela crise em suas vidas. No Brasil, a palavra de ordem “Não é só por 20 centavos” expressou isso.
A revolta não se iniciou contra o governo petista de Dilma Rousseff. A maioria dos participantes havia, inclusive, votado nela. Segundo a Folha de S. Paulo, das 200 frases mais presentes nos cartazes dos manifestantes, apenas cinco se referiam ao governo. Nenhuma dizia “Fora Dilma”, ou era agressiva a seu governo. Praticamente todas exigiam mais e melhores serviços públicos de transporte, saúde e educação. Questionavam também o modelo representativo, queriam mais espaços de participação.
A resposta do petismo foi errática e a pior possível. Fernando Haddad, então prefeito de São Paulo, foi à TV ao lado do então governador Geraldo Alckmin (responsável pela brutal repressão ao movimento) dizer que era impossível retirar o aumento de 20 centavos — quando o aumento já estava sendo derrubado na maior parte das cidades do país, o que acabaria ocorrendo também em SP. Além de mostrar uma unidade de adversários históricos como o PT e o PSDB contra o movimento e o povo mais carente, isso aumentou a descrença no regime representativo.
Dilma chegou a propor um conjunto de iniciativas. Mas os manifestantes não se viram contemplados pelas propostas. A forte repressão, apoiada pelo governo federal, ajudou a massificar as manifestações. No decorrer do processo, a condução dos atos foi disputada por setores conservadores no interior do movimento. A direita tradicional, por meio da mídia corporativa, foi de início contra as manifestações, classificando-as como baderneiras e radicais. Mas mudou de posição e passou a apoiá-las, ao ver o desgaste das lideranças petistas, calculando ser aquele o caminho para reverter o apoio popular ao lulismo. Nas mobilizações de São Paulo, já estava presente a direita mais radicalizada, até violenta, principalmente contra a presença de partidos e sindicatos — que, em geral, era um ponto de unidade com os manifestantes.
Com a ajuda das big techs, por meio das redes sociais — que eram o espaço de articulação dos manifestantes —, a direita radical começou a “sequestrar” o movimento. A ausência de resposta política do governo petista às reivindicações foi a gota d’água. Aí começa a mudança na correlação de forças que levaria ao impeachment de Dilma, ao governo golpista de Michel Temer, à prisão de Lula e à vitória de Jair Bolsonaro.
Os limites do progressismo
No final da década de 1990 e início do novo século, o descontentamento das populações de nosso continente com a forma de exploração do modelo neoliberal — imposição de miséria ao povo e saque de nossas riquezas naturais — levou à eleição, em vários países, de governos vistos como de esquerda, reformistas, no que ficou conhecido como onda progressista ou “onda rosa”. São dessa época Hugo Chávez na Venezuela (1999–2013), Lula no Brasil (2003–2010), Néstor Kirchner na Argentina (2003–2007), Tabaré Vázquez no Uruguai (2005–2010), Evo Morales na Bolívia (2006–2019), Rafael Correa no Equador (2007–2017) e Fernando Lugo no Paraguai (2008–2012).
Apesar de terem tomado medidas de combate à fome e ao desemprego, enfrentamento ao analfabetismo e, em alguns casos, buscado ampliar a soberania, a maioria desses governos deixou passar a oportunidade de se valer do descontentamento da população e sua organização para conquistar a resolução real dos seus problemas. Faltou um programa que desse substância à democracia, que não se limitasse ao voto a cada dois anos. A luta por uma segunda independência nacional e por soberania também ficou pelo meio do caminho. E o que não avança, retrocede.
Assim, ainda que o povo brasileiro tenha tido a generosidade de reeleger Dilma, por uma pequena margem de 3%, a saída dada pelo quarto governo petista, mesmo com dados econômicos positivos em dezembro de 2014, foi um giro à direita. Em janeiro de 2015, Dilma dá um cavalo de pau e indica um representante do mercado financeiro, Joaquim Levy, para o Ministério da Fazenda. Abandona o discurso desenvolvimentista e inclusivo em favor de uma política ultraliberal. O desgaste do governo aumenta e as greves proliferam. A oposição toma as ruas pedindo impeachment. Os atos contra o golpe, mesmo sendo massivos, se atrasaram. Dilma sofreu impeachment em agosto de 2016, deixando em seu lugar Michel Temer, o perjuro, que foi parte ativa do golpe.
Golpes, intervenções na política interna dos países e espionagens foram a prática do imperialismo contra os governos progressistas. No Brasil, a Operação Lava Jato foi um exemplo dessa orientação. E as limitações das respostas desses governos diante da crise abriram espaço para uma contraofensiva. Com o aprofundamento da crise internacional, as ações de desestabilização se tornaram insuficientes. Uma nova onda de governos reformistas, já na terceira década do século, obrigou o imperialismo a lançar mão do que conhecemos hoje como neofascismo. Essa havia sido a resposta dos países do Eixo diante da crise econômica de 1929, e agora chegava à Casa Branca, com a primeira vitória de Donald Trump (2016).
Nosso partido teve participação ativa nas mobilizações, enfrentou o crescimento da direita no interior das manifestações, soube se posicionar com uma política correta diante desses fatos e capitalizou setores importantes da juventude, do movimento dos sem-teto, movimento negro e LGBTQIA+. Mas, pelo nosso tamanho e inserção social, era difícil ocupar um espaço mais amplo.
O retorno ou atualização do fascismo é parte da política de um imperialismo em crise, em disputa pela hegemonia com a China
Às portas do inferno
A vitória de Bolsonaro em 2018 foi, em larga medida, uma surpresa. Ela surgiu da decadência econômico-política de anos de neoliberalismo combinada com a necessidade do capital em aprofundar o modelo de concentração de renda, riqueza e patrimônio, e de destruir tudo o que é público. Mas era também uma resposta, pela extrema direita, às profundas transformações no mundo do trabalho e às novas tecnologias. Bolsonaro no poder foi resultado de uma aliança do agronegócio, do conservadorismo evangélico, de setores militares, policiais e milícias, mobilizados com apoio das big techs.
A bancada BBB — do boi, da bala e da bíblia — já era uma expressão desse processo, que se aprofundou.
O PSDB se esfumaçou, o PT encolheu e o neofascismo assumiu e aprofundou o ataque ao povo pobre e trabalhador. Se com Temer veio o teto de gastos, a PEC do fim do mundo, a contrarreforma do ensino médio (em seu primeiro ensaio) e todas as medidas de aumento da exploração, com Bolsonaro abriram-se as portas do inferno. Vieram a reforma trabalhista, o negacionismo científico, 700 mil mortos na pandemia de Covid-19, a entrega de Alcântara para os norte-americanos, o desmonte da Petrobras, o avanço do reacionarismo nos costumes, a porteira aberta à destruição do meio ambiente.

No meu livro com Mário Azeredo, Rússia x Ucrânia, pelo fim da OTAN (2022), fizemos uma periodização leninista de etapas na época imperialista. Levantamos a hipótese de que a crise estrutural aberta pelo crash de 2008 teria inaugurado uma transição para uma nova etapa imperialista, com a contaminação de todo o mundo pela crise de 2008, pelos impactos do aquecimento global e pandêmico na economia, pela guerra da Ucrânia e pelas mudanças no padrão monetário internacional. Mas alertamos que essa mudança estava por se confirmar, pois não estava descartada a eclosão de um novo conflito internacional.
O retorno — ou atualização — do fascismo é parte da política do imperialismo em crise e da etapa de disputa de hegemonia geopolítica entre EUA e China. Nessa disputa, o Brasil, por seu papel como articulador, ocupando este ano a Presidência dos BRICS, tem sofrido ataques, como o tarifaço e até ameaças de agressão militar. O imperialismo volta a se preocupar com seu “pátio traseiro”, como indica, ainda, sua ameaçadora presença nas imediações do litoral venezuelano.
Para enfrentar o neofascismo, que põe em xeque qualquer perspectiva de projeto pela esquerda (mesmo as timidamente reformistas), o PSOL deve combater as políticas neoliberais que alimentam esse monstro. Derrotar o arcabouço (ou calabouço) fiscal, a Reforma Administrativa em gestação, a política de juros do Banco Central, e defender nossa classe e nosso povo por meio de reformas estruturais, que apontem para a defesa de um Brasil soberano, rumo à superação do capitalismo.