Dez anos que pareceram um século. Uma década em que o Brasil foi atravessado por diversos abismos: o golpe contra Dilma, a execução de Marielle, a prisão política de Lula, a vitória de Bolsonaro, a pandemia e o negacionismo que ceifaram 700 mil vidas, e, por fim, o reencontro do país com a justiça e a esperança. Essa não foi apenas uma travessia institucional, foi histórica, existencial, cultural e moral. E não dá pra contar essa história sem incluir o PSOL.
Não foi fácil manter a bússola apontada para o caminho certo. De um lado, oportunistas abandonaram o barco da esquerda, como ratos em um navio que afunda. De outro, os esquerdistas pensavam que se iniciava a superação do PT pela esquerda, em um delírio. O PSOL soube entender que o que emergia nesse cenário era a dilapidação dos direitos sociais, a volta da fome como projeto, a deterioração da democracia, o neofascismo. Por isso, não vacilou diante do golpe e se recusou a normalizar a perseguição judicial contra Lula. A perda da nossa companheira de partido Marielle Franco em uma execução política levada a cabo por agentes e ex-agentes do Estado deixou muito nítido que era a barbárie que nos espreitava. Nas horas mais sombrias da História recente o PSOL escolheu permanecer do lado certo, escolheu apostar na coerência e na responsabilidade.
Resistir, no entanto, não significou recuar. Durante essa década extraordinária, o PSOL foi se transformando no principal polo de renovação da esquerda brasileira. Foi quando o partido abriu suas portas e seus horizontes. A entrada dos militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) simbolizou o encontro das ruas e dos territórios com a política socialista. Essas adesões pintaram ainda mais o PSOL de povo. Quando Guilherme Boulos e Sônia Guajajara foram candidatos à presidência em 2018, o PSOL levou para o centro do debate uma proposta radicalmente democrática, popular e ecológica, uma visão de país enraizada no chão e projetada no futuro.
Vieram tempos de perseguição, fake news e ódio político. Mas o PSOL atravessou esses anos com a força de quem não negocia princípios. Enquanto o bolsonarismo promovia destruição ambiental, negacionismo científico e ataque aos direitos sociais, o PSOL esteve na linha de frente da oposição. Defendeu a vida quando o governo escolheu a morte, denunciou os crimes da pandemia, exigiu vacina, auxílio emergencial e dignidade para o povo. Não foi um partido de conveniência, mas de consciência e consistência. Mobilizou as ruas, se agigantou no Congresso, nas redes e nas periferias com políticas de solidariedade.
Crescemos nas urnas, nas redes e nas ruas. Nossa bancada federal se multiplicou, consolidando lideranças que se tornaram vozes indispensáveis da política brasileira. Na Câmara dos Deputados, nossos acertos políticos se transformaram em crescimento. Se em 2014, o PSOL elegeu apenas 5 deputadas/os, em 2018, dobrou a bancada, alcançando 10 parlamentares. Em 2022, batemos esse recorde, com 12, dentro da federação PSOL-Rede que totalizou 15 cadeiras, após correção judicial no Amapá. Um salto que traduz a passagem da margem para o centro do debate nacional. Na prática, a bancada do PSOL, hoje liderada por Talíria Petrone, tornou-se voz de uma época, ancorada em territórios e lutas concretas. O avanço também transbordou para as Assembleias Legislativas: em 2022, o PSOL elegeu 22 deputados estaduais (a federação PSOL-Rede, 28), consolidando uma geração que trouxe para dentro do parlamento as pautas das periferias, das mulheres negras, dos povos indígenas e da juventude indignada.
Quando precisamos reconstruir o Brasil, o PSOL compreendeu seu papel histórico. Em 2022, foi o primeiro partido a declarar apoio a Lula desde o primeiro turno, ajudando a construir a unidade que derrotou o bolsonarismo. A coerência que parecia teimosia nos anos de golpe se revelou sabedoria no tempo da reconstrução. Vencemos! Por pouco, mas vencemos. Abrimos um novo capítulo na história do país e esse capítulo deveria se chamar REDENÇÃO. Lula saiu da prisão, inocentado, para reassumir o cargo de presidente. O povo subiu a rampa do Planalto representado em sua diversidade.
O PSOL atravessou os anos Bolsonaro com a força de quem não negocia princípios: estivemos na linha de frente da oposição
É verdade que não tivemos uma vitória definitiva. De um lado, a extrema-direita se mantém organizada e ainda mais raivosa e perigosa; de outro, os ecos do neoliberalismo ainda inviabilizam um projeto de país justo e sustentável. Mesmo assim, conseguimos avanços importantes em diversas frentes: saímos do mapa da fome, reduzimos o desemprego ao menor nível da história, aumentamos a renda dos trabalhadores, reduzimos o desmatamento, isentamos aqueles que ganham até 5 mil reais e reduzimos o Imposto de Renda dos que ganham até 7,3 mil reais, aumentamos o imposto sobre as altas rendas. Ao mesmo tempo que o governo passou a defender a luta pela redução da jornada 6×1 e a tarifa zero nos transportes.
A vitória de Lula ganhou dimensão estratégica diante dos planos de Donald Trump de impor ao mundo uma nova ordem global subordinada ao imperialismo estadunidense. Nosso governo soube reagir com a altivez necessária diante do tarifaço e ao mesmo tempo desmoralizar os falsos patriotas que se aliaram ao inimigo estrangeiro contra o Brasil. Ao lado disso, o governo denunciou o genocídio em curso em Gaza como o símbolo maior da barbárie que espreita nossa época.
Devemos seguir lutando para que o resultado desse amplo arco narrativo, do abismo à redenção, possa representar um reencontro do Brasil consigo mesmo. As pesquisas demonstram, e o governo já entendeu, que a defesa das causas populares, da democracia e da soberania são a chave para o apoio do povo que será fundamental para enterrar de vez o neofascismo. O momento atual representa uma aproximação das teses do campo democrático e popular com àquelas que já vinham sendo defendidas pelo PSOL. Estamos diante de algo que nunca ocorreu antes: a orientação política do PSOL passa a ter uma predominância na orientação política da esquerda como um todo. Taxação dos super ricos, direitos para os trabalhadores de aplicativos, tarifa zero e fim da jornada 6×1 são bandeiras que o PSOL não abaixou e que agora são erguidas por aqueles que priorizavam as mediações políticas em nome da governabilidade.
O PSOL tornou-se maior, mais plural, mais maduro e pronto para disputar os rumos do país. A década extraordinária não foi apenas uma série de acontecimentos, foi uma provação. E o partido passou por ela reafirmando o que sempre acreditou: que é possível fazer política com princípios e radicalidade, sem se render ao sistema, sem perder a dimensão anticapitalista. Mais do que isso, o PSOL se tornou a maior referência nacional de um socialismo de novo tipo, o ecossocialismo, com centralidade em seu novo programa para a emergência climática. O contraste entre as duas vezes que Talíria Petrone liderou nossa bancada federal revela o desenvolvimento do partido: na primeira vez como resistência, na segunda como alternativa, como potência.

O golpe, o assassinato de Marielle, a vitória de Bolsonaro e a pandemia pareciam nos jogar num abismo sem saída. Enfrentar essa página infeliz de nossa história, sem deixar de sonhar e acreditar no Brasil, nos tirou desse buraco. Hoje, quando olhamos para trás, vemos que resistir foi mais que sobreviver, foi mudar o curso da História. Da prisão de Lula à prisão dos golpistas, o Brasil percorreu uma travessia épica. E o PSOL esteve lá em cada etapa, não como mero espectador, mas como sujeito histórico, fiador da esperança, motor da resistência e semente do futuro.
Uma década extraordinária! De dor, resistência, coragem e ação. Uma década de aprender e ensinar. Quem apostou contra o PSOL perdeu a aposta. Somos o partido do futuro! Seguimos com os pés no chão e o horizonte aberto, porque a história ainda não acabou, ela apenas começou a mudar de lado. Viva o PSOL!
Alessandra Freitas
Direção Nacional PSOL e militante
Ecossocialista/Subverta