No quarto dia da FLIPEI, a Fundação Lauro Campos e Marielle Franco promoveu o lançamento do livro “Violência Neoliberal”, organizado pelos psicólogos Adriana Herz, Felipe Maiello, Gabriel da Silva Santos e Nelson da Silva Júnior. A obra foi editada pela Editora Funilaria, uma editora independente comprometida com a publicação de escritos voltados à compreensão crítica do capitalismo e das violências vivenciadas pela classe trabalhadora nesse sistema, com o apoio da FLCMF.
O livro conta com diversos artigos de pesquisadores que participaram da Jornada Violências e Neoliberalismo, organizada no Instituto de Psicologia da USP. Na ocasião do lançamento, para além dos organizadores da obra, alguns autores puderam estar presentes. Contribuíram com textos para o livro: Pedro Micussi, Camila Galetti, Luana Alves, Marcio Farias, Clarice Paulon, Gabriel Binkowski, Christian Dunker, Mayla Di Martino, Patricia do Prado Ferreira, Ronaldo Manzi e Nelson da Silva Júnior. Já Bruno Zaidan, coordenador de projetos da FLCMF, escreveu o prefácio da obra. O debate realizado no evento de lançamento foi rico e abordou diferentes temas que perpassam a compreensão do neoliberalismo e também as formas de enfrentá-lo na atualidade.
Embora haja vasta produção acadêmica sobre o neoliberalismo, nem sempre se evidencia de forma suficiente o conjunto de violências específicas que este regime produz. É certo que o neoliberalismo se insere na longa história das violências inerentes ao modo de produção capitalista — desde a expropriação de terras que desvinculou os trabalhadores de suas formas autônomas de subsistência até a escravidão. No entanto, para além dessa continuidade, o neoliberalismo engendra formas próprias de violência, que se manifestam em múltiplas dimensões: no aprofundamento dos impactos persistentes da colonização; na intensificação da violência de Estado; na reprodução e agudização das opressões de gênero; e na consolidação de novas formas de precarização e controle social. E é a partir dessa reflexão que o livro parte.
Na discussão sobre o livro, o caso de Gaza foi mencionado: a Palestina foi transformada em um verdadeiro laboratório do extremo da violência neoliberal e o genocídio levado a cabo por Israel ilustra de modo dramático isso. Ali, práticas de despossessão, vigilância, militarização e destruição material se combinam com lógicas econômicas globais, revelando um modelo de gestão da vida e da morte marcado pelo cálculo frio da eficiência política e econômica.
Além disso, a pandemia de Covid-19 foi relembrada como um caso em que a racionalidade neoliberal também se expressou. A gestão da crise sanitária foi conduzida como um exercício de equilíbrio perverso entre a preservação da capacidade produtiva e a tolerância a um nível de mortalidade considerado “aceitável” para não comprometer o funcionamento dos mercados. Em nome da continuidade do comércio e da circulação de mercadorias, aceitou-se a morte em escala massiva, prosseguindo-se como se fosse possível manter a “normalidade” diante do colapso humano e social.
O lançamento do livro “Violência Neoliberal” foi uma rica oportunidade de aprofundar reflexões iniciadas nos textos dos autores e também apontar novos caminhos possíveis de compreensão do neoliberalismo e de maneiras de lutar contra a sua lógica.