Camila de Caso
Economista, militante do PSOL e do MTST
De título provocativo, Capitalismo Canibal, de Nancy Fraser, demonstra como o capitalismo não é apenas um modelo econômico e sim um modo de organização da sociedade com impactos diretos em sua produção, reprodução e até na nossa capacidade criativa de transformação do sistema para sua superação. Sem cair no catastrofismo ou derrotismo, Fraser detalha, simultaneamente, o conjunto das várias crises que vivemos hoje, fazendo de seu livro um convite à organização coletiva. Superar esse sistema, afinal, depende de uma compreensão integrada de suas crises, inclusive a ecológica, e uma articulação anti-hegemônica unificada.
A edição brasileira da Autonomia Literária, lançada em 2024, acerta ao manter o estilo original de capa, apresentando um Ouroboros: serpente que se canibaliza engolindo a própria cauda. Canibalizar é a forma como a autora descreve a relação entre a economia capitalista e os territórios não econômicos do sistema: famílias e comunidades, habitats e ecossistemas, capacidades estatais e poderes públicos – todos têm sua substância consumida pela economia para inflar o próprio sistema em busca do excedente de produção. A classe proprietária vive em estado constante de banquete, se alimentando de tudo e de todos nós.
É mais que um sistema econômico, é uma ordem social que autoriza a economia se mover pelo lucro, de forma a predar os apoios extra-econômicos de que necessita para funcionar: a riqueza expropriada da natureza e dos povos sujeitados; as múltiplas formas do trabalho de cuidado, que enfrenta uma desvalorização crônica; os bens e os poderes públicos que o capital exige e, ao mesmo tempo, tenta restringir; a energia e a criatividade da classe trabalhadora. Permite-se acumular valor monetarizado para investidores e proprietários, ao mesmo tempo em que se devora a riqueza não economicizada de todos os demais.
Nesse sentido, a autora aponta a necessidade das organizações que compõem o bloco antissistêmico de compreenderem a fundo o capitalismo. O campo econômico progressista mundial se une ao formular que as crises estão cada vez mais profundas e tem diminuído o período entre crises. Mas se o diagnóstico nos une, o prognóstico nos separa.
Fraser destaca, já de início, que as reformas – as medidas keynesianas ou pós keynesianas – são incapazes de atacar na raiz os males financeiros, econômicos, ecológicos, políticos e sociais do capitalismo. Com exceção dos “trinta anos gloriosos”, nos quais o capitalismo se aproximou da entrega do sonho americano de prosperar a partir do próprio trabalho, as últimas décadas se caracterizam pela manifestação das contradições do sistema, gerando não apenas crises de ordem econômica, mas também as crises de cuidado, ecologia e política.
A autora destaca que o sonho americano só foi possível de ser entregue em países do centro do capitalismo por meio de famílias semi-proletarizadas, que combinavam o emprego dos homens com o trabalho doméstico não remunerado das mulheres, bem como inibindo o desenvolvimento do consumo de mercadorias na periferia. Retomando o Capital de Karl Marx, a autora apresenta que para a criação do excedente tão buscado numa sociedade capitalista, o capital precisa tanto da apropriação de trabalho excedente dos trabalhadores assalariados explorados, quanto pela expropriação da riqueza não capitalizada e subcapitalizada de trabalhadores e trabalhadoras do cuidado, de populações racializadas e da natureza.
É dessa forma que o capitalismo se expande, por nos canibalizar. O desenho de medidas para superação do capitalismo, portanto, deverá associar as contribuições do pensamento feminista, ecológico, pós-colonial, e de libertação negra. Nesse sentido, Fraser estrutura sua análise em torno de quatro crises fundamentais e interligadas, que constituem as “feridas abertas” do capitalismo canibal.
A primeira, é a crise de cuidado: o pilar oculto da reprodução social. O capitalismo depende historicamente do trabalho não remunerado ou mal pago das mulheres – no cuidado com crianças, idosos, doentes e na manutenção dos lares – para regenerar a força de trabalho diariamente e entre gerações. Este é o roteiro de fundo que permite o palco principal da acumulação. A crise se torna notória quando, pressionadas pela dupla ou tripla jornada e pela precarização, as mulheres já não conseguem sustentar esse modelo de subsídio gratuito ao capital.
A segunda ferida é a crise ecológica: resultado da lógica extrativista e predatória que trata a natureza como uma fonte inesgotável de “riqueza grátis” e um sumidouro infinito para seus resíduos. Fraser vai além da noção de “externalidade”, mostrando como a expropriação da natureza e de comunidades racializadas – frequentemente indígenas e do Sul global – é um componente estrutural e não acidental do sistema. O capitalismo canibaliza os fundamentos mesmos da vida no planeta, devorando seu próprio suporte biofísico. Num sistema operado pelas “forças de mercado”, é impossível coexistir algum modelo que não aprofunde a crise climática e ecológica atual.
A terceira é a crise política, que se manifesta na erosão do poder público. O capitalismo necessita do estado para garantir a lei, a ordem, a moeda e as infraestruturas, mas ao mesmo tempo, o poder do capital financeirizado e das corporações transnacionais corrói a soberania popular e a capacidade de os estados regularem a economia em prol do bem comum. A captura corporativa do estado e a austeridade são formas de o capital devorar os próprios poderes públicos, que ele mesmo requer para funcionar. A austeridade é apenas uma bandeira para retirar direitos da classe trabalhadora, transformando-os em mercadorias. Para a classe dominante, o Estado pode seguir como pilar de manutenção de expropriação do excedente a partir dos vários subsídios.
Por fim, a própria crise econômica se aprofunda, mas Fraser a relê através das lentes das outras três. A financeirização, por exemplo, não é apenas um fenômeno de cassino especulativo, mas um mecanismo de canibalizar futuros, de sugar riqueza da sociedade e da natureza de forma ainda mais abstrata e voraz.
O grande trunfo de Fraser é demonstrar que essas crises não são isoladas. Elas formam uma “crise orgânica do capitalismo” no sentido gramsciano. A crise de cuidado (esgotamento da reprodução social) alimenta a crise econômica (falta de trabalhadores “sadios”, pressão por salários). A crise ecológica (escassez de recursos, desastres) gera custos que exacerbam as crises econômica e de cuidado. A crise política (estados capturados) impede soluções democráticas para qualquer uma delas. É uma espiral de canibalismo onde o sistema corrói suas próprias bases de sustentação.
A superação, para Fraser, não virá de reformas superficiais que apenas adiem o banquete canibal. Ela defende uma estratégia contra-hegemônica que una as lutas fragmentadas – movimentos feministas, antirracistas, ecologistas, sindicais e por justiça global – em uma frente comum. Não se trata de salvar o capitalismo de si mesmo, mas de superá-lo rumo a uma sociedade baseada na reprodução social ampliada, na regeneração ecológica e no poder popular. O ecossocialismo feminista que emerge de sua análise é aquele que coloca a sustentabilidade da vida, e não a acumulação de valor abstrato, no centro da organização social.
“Capitalismo Canibal” é, portanto, mais do que um diagnóstico. É um chamado para a esquerda no século XXI. Um convite urgente para que movimentos historicamente segregados percebam que estão lutando contra o mesmo monstro, um sistema que, em sua fome insaciável, devora tudo – a terra, o cuidado, a democracia e, por fim, a si próprio. A pergunta que fica, ecoando o Ouroboros da capa, é: conseguiremos interromper seu banquete suicida antes que ele consuma o último pedaço de futuro que nos resta? A resposta, sugere Fraser, depende de nossa capacidade de organizar um antídoto coletivo, tão interconectado e potente quanto a crise que nos consome.