Jamal Juma é coordenador do Stop the Wall, movimento palestino contra o muro do apartheid, e membro do secretariado do Comitê Nacional Palestino do Movimento de Boicote Desivestimento e Sanções (BDS);
Salma Barakat nasceu em Jerusalém e é coordenadora de comunicação do Stop the Wall
Há mais de 77 anos, Israel promove um regime colonial e racista contra o povo palestino. Nos últimos dois anos, isso se intensificou através de uma ofensiva genocida não apenas em Gaza, mas em toda a Palestina histórica. Dentre os crimes de Israel, descritos por especialistas da ONU, está o genocídio cultural, o domicídio (destruição sistemática de domicílios), o urbicídio (destruição sistemática de cidades), o escolasticídio (destruição sistemática do sistema educacional), o medicídio (destruição sistemática do sistema de saúde), e o ecocídio (destruição sistemática do meio ambiente).
Diante desta lista, não surpreende que Israel veja na COP-30 uma oportunidade para tentar lavar sua imagem e esconder seus crimes e violências. Sob uma narrativa falsa de preocupação com o meio ambiente, o “greenwashing” israelense tenta encobrir inclusive sua prática ecocida inerente à sua própria origem. Afinal, Israel destrói sistematicamente terras, recursos hídricos e a agricultura palestina, em um esforço de limpeza étnica desde 1948.
Já na década de 1950, o regime israelense e o Fundo Nacional Judaico (JNF) drenaram o Lago Hula e as áreas úmidas ao norte da Palestina histórica em um pretenso projeto de “desenvolvimento”, com o objetivo de criar terras agrícolas para colonos europeus. O resultado foi destruição ambiental massiva, extinção de ecossistemas e poluição das águas que alimentam o Mar da Galileia.
Simultaneamente, a empresa nacional de água israelense Mekorot começou a desviar água do Rio Jordão para cidades e assentamentos israelenses, inclusive no deserto de Naqab. Após a ocupação da Cisjordânia e Gaza em 1967, esse roubo de água se intensificou. Hoje, o outrora vital Rio Jordão se reduziu a um filete tóxico de esgoto e lixo e o desvio de seu curso causou o colapso ecológico do Mar Morto.
Na Cisjordânia ocupada, a destruição nunca para: forças e colonos israelenses arrancam oliveiras centenárias para deslocar palestinos, enquanto assentamentos ilegais despejam esgoto e lixo nas vilas palestinas, envenenando o solo e a água.
Em Gaza, o genocídio se tornou um verdadeiro laboratório de destruição da vida humana e do meio ambiente: desde outubro de 2023, o exército israelense já lançou mais de 100 mil toneladas de bombas contra Gaza, superando a quantidade total de explosivos usados na Segunda Guerra Mundial. A pegada de carbono das emissões de gases de efeito estufa, oriundas de atividades militares israelenses nos primeiros 15 meses do genocídio, já supera as emissões anuais de aquecimento global de 100 países individualmente. No entanto, não são incluídas nos relatórios da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC, em sua sigla em inglês).
Metais pesados de foguetes, munições não detonadas e urânio empobrecido contaminaram o solo e as águas subterrâneas, impactando gravemente a saúde pública e a fertilidade do solo palestino. Até abril de 2025, mais de 80% das terras agrícolas de Gaza haviam sido danificadas. Além disso, o uso de bombas de fósforo branco por Israel — proibidas nas áreas civis pelo direito internacional — deixa consequências sociais, de saúde e ambientais por décadas.
Tudo isso só é possível graças à cumplicidade internacional de governos e corporações: os mesmos que lucram com a destruição planetária, com expropriação de povos indígenas, com o militarismo e a máquina genocida israelense. Empresas de energia, água e do agronegócio são, nesse sentido, cúmplices diretas, fornecendo combustível, carvão e tecnologia que alimentam o exército, os assentamentos e o apartheid israelense.
O Brasil, como anfitrião da COP-30 e ainda exportador de petróleo para Israel, tem uma grande responsabilidade e obrigação moral. O país precisa transformar seu discurso em ações concretas, cortando laços entre a Petrobras e Israel, e adotando um embargo energético que uma ação climática e solidariedade antiapartheid, nos moldes do que já foi adotado pela Colômbia. Além disso, o Brasil ainda mantém um tratado de livre comércio com Israel, incentivando o comércio com empresas diretamente ligadas aos crimes israelenses. Urge que o país deixe este acordo!
A Coalizão Palestina para a COP-30 exige que Israel seja excluído da Convenção para as Mudanças Climáticas e do sistema das Nações Unidas. Pedimos um embargo energético global a Israel e reafirmamos que a Palestina também é uma questão de justiça climática. Os movimentos palestinos fazem um chamado por solidariedade efetiva para pôr fim à cumplicidade através de campanhas fortes de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), tendo como alvo, inclusive, empresas de água e do agronegócio que lucram com as violações israelenses.
É o caso da Mekorot, empresa responsável por abastecer assentamentos e impor o apartheid da água na Cisjordânia e cortar seu fornecimento em Gaza. Na América Latina, a empresa oferece consultoria e treinamento em gestão hídrica a governos e empresas, geralmente para projetos extrativistas que demandam uso intensivo de água. É urgente encerrar todos os acordos com a Mekorot, aliando a batalha pelos direitos palestinos com as lutas contra a privatização da água e o avanço da monocultura nos países do Sul Global.
Do mesmo modo, a Coalizão denuncia como empresas israelenses de agronegócio — Netafim, Adama e ICL Group — lucram com a limpeza étnica de terras palestinas, exportando tecnologias agrícolas e pesticidas testados em territórios ocupados. Essas tecnologias fazem parte de um sistema de agro-colonialismo e greenwashing, que destrói a agricultura familiar e tradicional e enriquece corporações sob o pretexto de “alimentar o mundo”. Empresas como JBS, Bayer-Monsanto e Syngenta usam a mesma retórica de “inovação” para esconder sua destruição ambiental e social.
Os crimes de Israel se tornaram um modelo global, onde o ecocídio e a repressão militar se legitimam mutuamente. Gaza é um laboratório de normalização da violência estatal como guerra ambiental rumo a destruição total da ecologia e da dignidade de um povo. Quando combinada ao agronegócio brasileiro — principal motor do desmatamento, da grilagem e da violência contra povos indígenas — essa dinâmica é ainda mais alarmante: não há dúvidas de que o império e suas elites estão dispostos a sacrificar milhões de vidas, marcadamente negras, indígenas, palestinas e periféricas, para manter a acumulação de capital.
O que ocorre em Gaza e em toda a Palestina histórica é uma destruição coordenada dos sistemas ecológicos, da soberania indígena sobre a terra e das bases socioambientais da vida coletiva — um ataque que revela a profunda conexão entre dominação colonial, violência e injustiça climática. Nesse sentido, a Palestina é um ponto central para compreender a interseção entre genocídio, ecocídio, militarismo e colonialismo de assentamento.
É hora, portanto, de reconhecer que o ecocídio colonial israelense é parte essencial do projeto de eliminar o povo palestino e que isso é uma realidade terrível não apenas para os palestinos, já que todos os sistemas da Terra estão conectados. Todos respiramos o mesmo ar contaminado, enquanto nossas águas e solos são poluídos de maneiras que ainda não compreendemos totalmente.
Assim, fazemos um chamado às pessoas de consciência em todo o mundo para construir alianças interseccionais, com o objetivo de pôr fim imediato ao genocídio em Gaza, acabar com a ocupação ilegal de Israel, desmontar o regime de apartheid colonial, expor empresas que fazem greenwashing dos crimes israelenses e garantir reparações ao povo palestino por parte de todos os responsáveis e cúmplices
É urgente fortalecer o movimento global de BDS como ferramenta de responsabilização e construir campanhas conjuntas que unam justiça climática, anticolonialismo e luta contra o apartheid.