Por Ruth Almeida
Socióloga, doutora em Ciências Agrárias e docente da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra)
A luta das mulheres por dignidade, igualdade e justiça sempre andou de mãos dadas com as grandes transformações sociais e ambientais. Nos últimos anos, essa luta ganhou novos formatos diante das emergências climáticas e da degradação crescente do planeta — especialmente em regiões como a Amazônia, onde o impacto da crise ecológica é mais visível e impactante. É nesse cenário que o ecofeminismo se afirma muito mais que uma teoria, mas como uma maneira de resistir e reconstruir o mundo, conectando a opressão das mulheres à exploração da natureza e propondo novas formas de convivência baseadas no cuidado, na solidariedade e no respeito aos limites da vida..
O termo ecofeminismo surgiu nos anos 1970, criado pela francesa Françoise d’Eaubonne, que enxergava um mesmo sistema de dominação por trás da exploração da natureza e da subordinação das mulheres. Para ela, o patriarcado e o capitalismo transformaram corpos e ecossistemas em recursos — algo a ser usado, extraído e descartado. Mais tarde, autoras como Vandana Shiva e Maria Mies ampliaram esse pensamento e mostraram como as mulheres, principalmente as do Sul Global, estão na linha de frente da resistência: são elas que enfrentam o avanço das monoculturas, o envenenamento dos rios e a fome. São elas também que cuidam da terra, guardam sementes e mantêm viva a economia da vida, muitas vezes invisível.
Na Amazônia, essa relação é próxima e quantificável. Quando o agronegócio derruba a floresta, a mineração contamina as águas e o latifúndio expulsa comunidades, são as mulheres que sentem primeiro, porque estão à frente do cuidado com as famílias, com as roças, com os alimentos e com a água. É o chamado “corpo-território”: o corpo da mulher e o território natural são extensões de uma mesma vida. Violentar um é violentar o outro. É por isso que defender a floresta é também defender as mulheres — e vice-versa.
Em toda a Amazônia brasileira, é possível ver o ecofeminismo se tornando prática cotidiana. Mulheres ribeirinhas, quilombolas e indígenas criam redes de agroecologia, lideram cooperativas, cuidam das águas e das matas. São exemplos concretos de resistência como plantar, cuidar, recuperar e resistir em meio à devastação. Esses são exemplos de que ações como estas não são apenas ambientais, são também políticas. São uma forma de desafiar um modelo econômico que destrói em nome do lucro e reafirmam que o centro da política deve ser a sustentabilidade da vida.
O ecofeminismo propõe uma nova forma de pensar a política: não como disputa por poder, mas como compromisso com a sobrevivência coletiva. Exemplos inspiradores vêm de toda a América Latina: mulheres indígenas no Equador e na Bolívia enfrentam mineradoras em defesa de seus territórios; no Brasil, movimentos sociais unem feminismos e agroecologia, mostrando que é possível produzir sem destruir. Mobilizações como a Marcha das Mulheres Negras e a Marcha das Margaridas transformam essa luta em força coletiva e denunciam o racismo ambiental e o modelo de desenvolvimento predatório, afirmando que a economia deve servir à vida, não ao contrário.
Na Amazônia, essa ideia ganha corpo quando mulheres se levantam contra projetos que ameaçam rios e florestas. Elas sabem que sem natureza não há futuro nem para o planeta, nem para suas comunidades. Lideranças femininas levam a pauta socioambiental aos espaços de decisão e mostram que proteger a floresta é proteger culturas, histórias e formas de vida que resistem há séculos.
No entanto, existem muitos obstáculos. Em muitos governos e instituições, a agenda ambiental ainda é tratada como técnica — distante das pessoas. Além disso, o discurso “verde” muitas vezes é usado como marketing por empresas e políticos, esvaziando o verdadeiro sentido da transformação (greenwashing). O desafio é fortalecer um ecofeminismo plural, que acolha e não silencie vozes negras, indígenas, ribeirinhas, urbanas, quilombolas — e reconheça que todas essas lutas se cruzam .
A luta das mulheres, portanto, é mais do que uma bandeira. É uma nova forma de ver o mundo. O ecofeminismo nos convida a colocar o cuidado no centro da política e a reconstruir as relações entre seres humanos e natureza. Cuidar do planeta e cuidar das pessoas não são tarefas separadas — são o mesmo gesto, a mesma esperança. Quando uma mulher planta, protege um rio ou enfrenta o garimpo, ela está dizendo, com o corpo e com a vida, que outro futuro é possível. Um futuro onde a justiça e o equilíbrio da Terra caminham lado a lado .