Pedro Ferraracio Charbel e Max André Correa Costa, Editores-chefes da Revista Jatobá
Sabemos que a construção urgente de outro presente e outro futuro não começa, nem termina, nas conferências do clima. A luta por justiça climática é ampla, sistêmica e constante, e os eixos de debate da Cúpula dos Povos, mobilização histórica de mais de mil organizações e movimentos paralela à COP-30, apontam o caminho: das batalhas por territórios vivos e soberania alimentar, às trincheiras contra o poder corporativo e as falsas soluções; da construção do internacionalismo e da transição justa e popular, à resistência das mulheres e as força das lutas urbanas. É uma construção coletiva que vem de séculos e vai além.
É justamente esse o espírito desta da Jatobá, materializado desde a capa com os trabalhos de Nay Jinknss. Passado, presente e futuro se entrelaçam nas colagens da artista paraense, que desloca registros de fotógrafos europeus do século XIX a suas imagens contemporâneas e íntimas do Mercado do Ver-o-Peso – um dos grandes patrimônios de Belém. Pólo fundamental de sociabilidade, cultura, comércio e tradição, esse espaço tem conectado – há 400 anos -, a Amazônia ao mundo. Um lembrete diário de nossa sociobiodiversidade e da força da economia popular e da ancestralidade.
À época desta publicação, durante a COP-30, a menos de 10 quilômetros de distância do Ver-o-Peso, líderes mundiais se reúnem mais uma vez para debater o óbvio e avançar com pouco – senão nada. As promessas das últimas edições não foram cumpridas, as discussões seguem sequestradas pelo mercado, e o que deveria ser um momento de virada da cooperação internacional pelo futuro do planeta segue como feira de negócios. Mesmo nas previsões mais otimistas da ciência, o estrago está feito. O cenário é desesperador e a mudança de rota, como temos apontado, é urgente.
Diante desse contexto, a Jatobá dedica a sua quarta edição aos debates que transcendem as salas de negociação da COP-30, estruturando-se de acordo com os eixos de debate da Cúpula dos Povos e valorizando a força das resistências e articulações de base por um outro futuro. Já em nossa sessão de apresentação de conceitos, Mary Louise Malig e Pablo Solon analisam a proposta do Fundo de Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) e argumentam que o futuro das florestas depende da luta dos povos e não da financeirização da natureza.
Por sua vez, as reportagens especiais dessa edição retomam as disputas que conformam as Conferências do Clima da ONU e como as obras para sua realização em Belém aprofundam o racismo ambiental na cidade. Para nossa sessão de entrevistas, em diálogo com as discussões do eixo de combate ao poder corporativo e falsas soluções da Cúpula dos Povos, três importantes lideranças dos rios Tapajós, Tocantins e Madeira – Auricélia Arapiun, Claudelice dos Santos e Iremar Ferreira – denunciam a tentativa do agro de promover hidrovias mortas como solução, e compartilham suas experiências de resistência.
Os impactos negativos do agronegócio sobre os territórios e a soberania alimentar, sobretudo em relação ao uso de agrotóxicos, são assunto da coluna de Alan Tygel, Roberta Quintino, Mirelle Gonçalves e Íris Pacheco, que narram a recente experiência do Tribunal Popular organizado pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. Por sua vez, a catadora María Castillo, o trabalhador da construção civil Gaston “Batara” Reyes, e a horticultora Romina Padilla, relatam a experiência da União de Trabalhadores e Trabalhadoras da Economia Popular (UTEP) na luta por uma transição justa nas cidades argentinas.
As contradições e os perigos da exploração de petróleo na Amazônia são assunto do texto de Adilson Vieira, da Articulação e Parcerias da Rede de Trabalho Amazônico (GTA). Ele pontua que, além de contrariar a urgente necessidade de transição energética, onde essa matriz avança, “o tecido social se rompe, a floresta recua, o poder se centraliza”. O petróleo também é assunto do texto de Jamal Juma e Salma Barakat, da organização palestina Stop the Wall e do movimento BDS, que chamam a atenção à necessidade do Brasil estabelecer um embargo energético contra Israel, denunciam o ecocídio promovido pelo regime sionista, e fazem um chamado concreto por solidariedade internacional.
Esta edição conta também com um balanço da socióloga Ruth Almeida sobre o ecofeminismo, descrito por ela como um verdadeiro “compromisso com a sobrevivência coletiva”, tendo as mulheres na linha de frente. Ainda, no mesmo sentido, apresentamos a resenha da economista Camila de Caso sobre Capitalismo Canibal de Nancy Fraser, que ressalta que a superação do capitalismo passa por uma uma articulação anti-hegemônica unificada, que dê conta das crises relativas ao cuidado, ecologia, política e economia. Por fim, tentando responder programaticamente a tudo isso, trazemos a Plataforma do PSOL em relação a COP-30, com pontos acordados pelo partido em relação à luta por justiça climática e transição ecológica.