Antes mesmo de se legalizar, o PSOL – ou o conjunto de forças que lhe deram origem – nasceu de uma mobilização. A forte luta dos servidores federais de todas as categorias, em 2003, contra a Reforma da Previdência levada adiante pelo primeiro governo Lula, foi a base social que à época sustentou as divergências dos “radicais do PT” e de inúmeros intelectuais até então petistas com a política econômica implementada pela nova administração. Aquela primeira reforma retirou dos trabalhadores da União, que tinham sido até então um dos mais poderosos sustentáculos da CUT e do PT, o direito à aposentadoria com salário integral.
Assim, o partido nasceu com o DNA da fidelidade às lutas das e dos explorados e das oprimidas. Uma marca do parto que se manteria no transcurso de 20 anos, expressa na participação da militância plural e/ou do apoio do partido em todos os grandes e decisivos movimentos de reivindicação trabalhadora, juvenil e popular. Como sintetiza o deputado federal Ivan Valente, um dos nossos veteranos, “o PSOL esteve na linha de frente do combate tanto ao neoliberalismo como ao neofascismo, representados no Brasil pelo Centrão e pelo bolsonarismo”.
Embora nunca tenha desenvolvido um setorial de intervenção sindical, o partido se fez presente e vocalizou, nos parlamentos aos quais chegou, todas as lutas de professores por salários e melhores condições de ensino; greves de garis, petroleiros e metalúrgicos. Apoiou e se nutriu dos ensinamentos das batalhas por moradia de trabalhadores sem-teto de Norte a Sul. O PSOL apoiou por dentro e por fora todas as grandes greves de docentes universitários federais – como a fortíssima luta de 2012, pela reestruturação da carreira. Apoiou todos os levantes de estudantes, como nas ocupações de 200 escolas secundárias de São Paulo entre 2015 e 2016, contra o rearranjo do sistema – que conseguiu barrar a reforma e derrubou o então secretário Herman Woorvald.
Apoiamos e aprendemos muito com o movimento indígena, acompanhando todos os Acampamentos Terra Livre, em Brasília, a luta contra o Marco Temporal e todos os conflitos em que povos originários reivindicaram seus territórios e modo de vida. “O PSOL poderia ser reconhecido como um partido de 525 anos de Brasil, pois é ele quem carrega duas mulheres indígenas eleitas deputadas federais, foi o primeiro partido a ter uma indígena candidata à Vice-Presidência, e está ao lado da luta das mulheres, dos povos indígenas, da população negra, da juventude, das pessoas LGBTQIA+ e da classe trabalhadora que carrega o Brasil nas costas”, avalia, certeira, a deputada Célia Xacriabá.
Nossa militância e dirigentes setoriais de vários movimentos – em particular do estudantil – estiveram no olho do furacão de 2013, disputando duramente, a partir das reivindicações da mobilização (saúde, educação, transporte gratuito e mais democracia), os rumos daquela revolta popular, em que, pela primeira vez depois de décadas, a direita e sua expressão extrema entraram para ganhar corações e mentes com eixo tão somente em debilitar a esquerda como alternativa.
Como assinala Guilherme Boulos, a partir de 2015, a polarização política e o crescimento da extrema direita culminaram no golpe institucional contra Dilma, a prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro. Diante desse novo quadro, recorda Boulos, “o PSOL se posicionou corretamente, escolhendo o caminho da unidade para o enfrentamento ao fascismo”. A partir do governo do golpista Michel Temer e depois durante o mandato de Bolsonaro, o partido tornou-se um dos maiores protagonistas da defesa da democracia, ao mesmo tempo que continuava lutando, com os trabalhadores e trabalhadoras, contra as reformas trabalhista (Temer) e previdenciária (Bolsonaro).
De forma sempre combinada com as batalhas econômico-sociais, o partido instigou e foi instigado pelo avanço das discussões, da conscientização e das lutas de mulheres, negras e negros, indígenas, jovens e pessoas LGBTs. O PSOL incentivou esse debate e ajudou nessas lutas, porque sempre teve em seu programa a igualdade entre homens e mulheres (com paridade de participação nas instâncias de direção), a luta contra o racismo estrutural que oprime a maioria da população brasileira, afrodescendente e indígena (terreno em que ainda temos muito o que avançar internamente) e contra as opressões de todas as manifestações diversas da sexualidade humana.
Nossas camaradas foram linha de frente da Primavera Feminista contra Cunha, de 2015, e da resistência que derrotou o PL do Estupro já em 2024, assim como serão agora o batalhão mais aguerrido contra o “golpe” disfarçado de Decreto Legislativo, com que a extrema direita conservadora da Câmara pretende impedir o aborto legal de meninas vítimas de estupro. Nossos negros e negras estão presentes nos conflitos sindicais, nas ocupações urbanas por moradia, na resistência ao genocídio praticado pelo Estado contra a juventude negra nas periferias, nas batalhas fundamentais contra a sanguinária “guerra às drogas”, pela liberdade religiosa e pelo respeito à sua ancestralidade.
Este partido tem orgulho de ter sido educado pelas trabalhadoras e trabalhadores que lutam, pela negritude, pelos incansáveis descendentes dos primeiros habitantes destas terras, pelos trabalhadores sem direitos; pelas mulheres e suas “primaveras”, pelo movimento LGBT, assim como pela conscientização global frente ao desastre ambiental provocado pelo capitalismo. “Denunciamos a falsa alternativa do capitalismo verde à crise ambiental”, recorda a deputada Fernanda Melchiona (RS). “Coerentes com aposta no ecossocialismo como única alternativa, somos contra a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, mostrando que é necessário rediscutir o modelo que só aposta nos combustíveis fósseis”.
Portanto, não por acaso, o PSOL passou a ser visto como espaço de expressão e de participação política por mais e mais lideranças feministas, negras, indígenas, ambientalistas, gays, lésbicas e pessoas trans, que vieram aderindo ao partido e se candidatando pela nossa sigla. Não por acaso o PSOL é o partido com maior porcentagem de filiados jovens. Não por acaso fomos escolhidos por jovens lideranças do movimento contra a jornada 6×1. Assim como sempre seremos o partido de Marielle Franco e de Plínio de Arruda Sampaio, somos não só o partido dos deputados, deputadas e vereadores mais corajosos, como da militância, eleitores e amigos mais lutadores. Afinal, mesmo com as disputas e polêmicas internas que não escondemos – porque são de uma sigla viva e plural – somos aqueles que acreditam unanimemente que só luta muda vida.
NEGRITUDE
“A questão racial em nosso país é estratégica. Faz parte de todo o contexto da vida social brasileira que possui maioria negra, fruto dos 356 anos de escravidão. A abolição em 1888 não resolveu os problemas centrais: terra, educação, superexploração do trabalho. (…) É preciso muito mais do que investimentos pequenos como temos no Ministério da Igualdade Racial. (…) O fim da escala 6×1 é uma realidade urgente, por se tratar de um resquício do período escravocrata. Faltam condições dignas, luz, água, saneamento, aos locais de moradia da periferia, onde vive a maioria do povo negro. A violência policial tem como alvo os corpos negros, em especial, os jovens. A privatização dos presídios e o avanço das comunidades terapêuticas tendem a aumentar ainda mais o encarceramento. A luta contra o racismo ambiental é um tema não apenas na academia, mas em todos os espaços da vida social. O PSOL tem o desafio de lutar pelas ampliações das cotas no serviço público, mas também nos espaços educacionais e nas esferas sociais.” (Setorial de Negras e Negros do PSOL)
MULHERES
“Nosso feminismo é popular, ecossocialista, indígena, negro, interseccional, comunitário e transfeminista, porque compreendemos que não há uma única experiência de ser mulher. As muitas vivências femininas são atravessadas por determinantes como classe, raça, território e identidade de gênero. (…) A construção de uma sociedade socialista requer o enfrentamento articulado de todas as opressões sobre as mulheres. (…) As desigualdades de gênero, raça, sexualidade e classe estão profundamente imbricadas com as estruturas econômicas, políticas, sociais e culturais. São pilares para a transformação social a economia do cuidado, a garantia dos direitos reprodutivos, a valorização do trabalho feminino, a proteção contra a violência de todo o tipo, a revogação de normas injustas, como a Lei de Alienação Parental. Ao colocar a vida, o cuidado e a justiça no centro do debate político, o feminismo reafirma seu papel essencial na construção de um novo horizonte civilizatório, em que a dignidade, a igualdade e a liberdade sejam garantidas a todas as pessoas.” (Setorial de Mulheres do PSOL)

JUVENTUDE
“Não é à toa que o PSOL é o partido com mais jovens filiados. O partido conseguiu corresponder às expectativas da juventude por representação, pelo combate às opressões, por combatividade, além de dialogar com os jovens que vivem na periferia, nas favelas e quebradas”, diz Mateus Rossetto, da Juventude Fogo no Pavio. Letícia, da corrente Juntos e diretora da UNE, recorda que em 20 anos, o partido se fez protagonista de momentos decisivos: “Fomos nós que nos levantamos contra a construção de Belo Monte no Xingu, tomamos as ruas durante as Jornadas de Junho de 2013, ocupamos escolas e universidades em defesa da educação pública, puxamos as lutas pelo #ForaTemer, não arredamos o pé durante o governo Bolsonaro, construímos o Tsunâmi da Educação, exigimos vacina e dignidade durante a pandemia e seguimos firmes para que Bolsonaro fosse responsabilizado por seus crimes”. Sara Vasconcelos, juventude Manifesta, também da direção da UNE, avalia: “Nos tornamos ferramenta indispensável na luta por um Brasil justo, democrático e socialista, contra o neoliberalismo, o bolsonarismo e as investidas do imperialismo, defendendo a soberania nacional, a educação pública, os direitos dos trabalhadores, das mulheres, das LGBTQIA+, do povo negro, indígena e quilombola. Foi nele que boa parte dos jovens ativistas encontrou espaço para ousar, sonhar e construir a força coletiva capaz de transformar o futuro”. No mesmo espírito, Lê Magalhães, da juventude Afronte e diretor da UNE, afirma que o partido também é novo na forma de fazer política; “De olho no socialismo e na liberdade, o PSOL é um símbolo essencial para a juventude que quer construir um mundo novo”.
MOVIMENTO INDÍGENA
“Nestes 20 anos, o PSOL tem sido a casa de quem sonha com um país de direitos e dignidade, capaz de enfrentar a fome, o racismo, a devastação ambiental e a violência política, e de transformar esperança em política pública”, afirma a deputada licenciada e ministra dos Povos Indígenas Sônia Guajajara. Sonia também foi coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a APIB. A eleição de Sonia e Célia Xacriabá como deputadas federais pelo PSOL em 2022, as primeiras indígenas da história nesse posto, foi uma consagração de uma relação de apoio, sustentação e profundo respeito do partido para com o combativo, incansável, heroico movimento indígena brasileiro – o único no mundo capaz de reunir numa só organização representações de mais de 300 etnias. Guajajara avalia que a relação deu um salto quando ela foi indicada candidata a vice-presidente, junto com Boulos, em 2020. “Ali o partido reconheceu a luta pela mãe Terra como a mãe de todas as lutas; ali começamos a aldear a política, levando nossas vozes e modos de vida para o centro do debate e das decisões nacionais”. Ela deseja (e o PSOL também) que sigamos juntos “enquanto houver floresta a proteger, territórios a demarcar e vidas a defender”.
