“Peixe que nada sozinho, morre/ Mas o cardume sobrevive.”
Djonga
O Brasil vive um tempo de transição marcado por incertezas, crises e disputas. Ao mesmo tempo que a extrema-direita segue organizada, sustentada por setores do capital financeiro, do agronegócio e por redes internacionais de desinformação, a esquerda e os movimentos populares enfrentam a tarefa de reconstruir sua força social e política em meio a um cenário de fragmentação.
A desigualdade estrutural, o racismo, o machismo patriarcal, a devastação ambiental e a precarização do trabalho se tornaram ainda mais agudos. Mas também florescem, em territórios periféricos e indígenas, em ocupações urbanas e em coletivos feministas e antirracistas, experiências de solidariedade, resistência e organização que apontam para novas possibilidades.
É nesse terreno que se coloca a tarefa de construir um novo bloco histórico, capaz de conectar as lutas populares em torno de um horizonte socialista. Esse bloco não nasce espontaneamente: ele precisa de uma força política que seja capaz de unificar sem sufocar, de traduzir sem domesticar, de articular sem substituir. O PSOL pode e deve ocupar esse lugar, não como mero partido institucional, mas como instrumento vivo de organização popular e de radicalização democrática.
Socialismo, uma utopia concreta
O socialismo do século XXI não é a repetição de experiências passadas nem um conjunto de dogmas imutáveis. Ele nasce da realidade concreta do Brasil: um país construído sobre a escravidão, o genocídio indígena, o colonialismo e a dependência externa. O capitalismo brasileiro não é apenas explorador, mas profundamente excludente, e sua crise estrutural se manifesta tanto na financeirização da economia quanto na destruição da natureza e na precarização do trabalho.
A resposta a esse quadro não pode ser apenas defensiva. É preciso resgatar o socialismo como utopia concreta, isto é, como horizonte que se conecta às lutas imediatas da classe trabalhadora e dos setores oprimidos. Esse horizonte já aparece nas cozinhas solidárias do MTST, nas ocupações urbanas que garantem moradia a milhares de famílias, nos assentamentos da reforma agrária, nas feiras agroecológicas, nas marchas feministas e antirracistas, nas ocupações estudantis e nas resistências indígenas e quilombolas, nas batalhas de rimas e slams de poesia, nos breques dos apps, na luta pelo fim da jornada 6×1 e demais formas de organização dos trabalhadores sem direitos.
O PSOL precisa se enraizar nessas práticas, não apenas como aliado externo, mas como ferramenta política dessas lutas. Seu papel é unificar o que já existe, dar visibilidade nacional às experiências locais e oferecer um programa capaz de unificar a diversidade da resistência em um projeto socialista de país.
Democracia popular
O Brasil nunca conheceu uma democracia plena. A República nasceu da exclusão das maiorias, a escravidão foi substituída por racismo estrutural, o desenvolvimento do capitalismo se deu à custa da superexploração da classe trabalhadora e a ditadura militar deixou marcas profundas que até hoje moldam o Estado e suas instituições repressivas. A extrema-direita atual, com seu autoritarismo, racismo e misoginia, é continuação dessa herança.
Nessas condições, defender a democracia significa muito mais do que preservar suas formas liberais. É preciso radicalizá-la. Uma democracia popular só pode existir se for construída a partir da participação direta do povo, por meio de conselhos populares, assembleias de base, orçamentos participativos, mobilizações comunitárias e novos instrumentos digitais de decisão coletiva.
O PSOL, por meio da relação que vem construindo nos últimos anos com os movimentos sociais referenciados na Frente Povo Sem Medo e graças ao trabalho de sua militância que organiza e participa de lutas de norte a sul do país, bem como de seus mandatos parlamentares comprometidos com as lutas do nosso povo, tem demonstrado que é possível transformar instituições em trincheiras populares. A luta contra o fascismo e o autoritarismo exige essa estratégia dupla: disputar o Estado por dentro, ampliando os espaços de poder e denunciando suas limitações, e fortalecer por fora a auto-organização popular, que é a única capaz de sustentar transformações profundas.
Justiça socioambiental como eixo
A emergência climática não é mais previsão futura: é realidade que já devasta vidas e territórios. Enchentes, queimadas, deslizamentos e ondas de calor atingem com maior força justamente aqueles que menos contribuíram para a crise: povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, agricultores familiares e moradores das periferias urbanas. Trata-se de um verdadeiro racismo ambiental, em que classe, raça e território definem quem mais sofre os efeitos do colapso climático.
O capitalismo verde, com suas falsas soluções — mercado de carbono, compensações ambientais, retórica de “Net Zero” — apenas aprofunda a mercantilização da natureza e perpetua as estruturas de desigualdade. O agronegócio, a mineração e as grandes obras de infraestrutura continuam destruindo biomas, expulsando comunidades e enriquecendo poucos à custa da vida de muitos.
O PSOL precisa assumir centralidade nesse debate, articulando justiça climática e socialismo. Isso significa defender desmatamento zero, reforma agrária popular, demarcação de terras indígenas, titulação de territórios quilombolas, fortalecimento da agroecologia e soberania energética e alimentar. Significa, sobretudo, colocar a vida no centro da economia, enfrentando as corporações transnacionais e denunciando a dívida histórica do Norte global com os povos do Sul.
Novos sujeitos, novos direitos
As transformações recentes no mundo do trabalho — automação, digitalização, uberização — corroeram a base do sindicalismo tradicional e criaram novas formas de exploração. Milhões de trabalhadores sobrevivem em condições precárias, sem direitos garantidos, vivendo o que se convencionou chamar de “empreendedorismo do desespero”.
Mas esse cenário não significa o fim da classe trabalhadora. Significa a necessidade de novas formas de organização. Já surgem greves de entregadores, coletivos de trabalhadores de aplicativos, articulações territoriais que combinam luta por renda, moradia e dignidade, ao exemplo do Sem Direitos, movimento que tem articulado essas diversas expressões dessa nova classe trabalhadora. Outro exemplo é o Vida Além do Trabalho (VAT), que reoxigenou uma pauta histórica da classe trabalhadora, a redução da jornada de trabalho, com a luta pelo fim da escala 6×1.
É preciso equilibrar o velho e o novo mundo do trabalho. Sindicatos ainda existem e são importantes ferramentas da luta dos trabalhadores, apesar de seus limites e burocratização.
Não existe socialismo sem feminismo, sem antirracismo, sem enfrentamenteo à LGBTfobia e sem defesa da nautreza. É preciso acolher essas lutas e transformá-las em força política unificada.
O PSOL deve se colocar como ponte entre esses novos sujeitos e o campo político. Seu papel é propor uma nova arquitetura de direitos, que inclua formais e informais, urbanos e rurais, assalariados e autônomos. Renda básica universal, redução da jornada, aposentadoria digna, proteção social ampla e direito à organização coletiva são bandeiras que podem unificar uma classe trabalhadora fragmentada.
Essa luta é, em última instância, uma disputa sobre quem se apropria da riqueza gerada pelas novas tecnologias. Hoje, ela é concentrada por big techs e elites financeiras. O projeto socialista defendido pelo PSOL precisa propor sua socialização, transformando ganhos de produtividade em tempo livre, bem-estar e vida digna para todas e todos.

Da fragmentação à unidade
Os movimentos feministas, negros, indígenas, LGBTQIAPN+, de juventude, ambientais e de moradia conquistaram centralidade nos últimos anos. Suas vitórias são expressivas: da visibilidade das pautas raciais e de gênero ao crescimento da representação no Congresso; da resistência indígena contra o marco temporal às mobilizações de massa do MTST.
No entanto, a fragmentação e a falta de articulação política mais ampla limitaram o alcance dessas lutas. Muitas vezes, suas demandas foram tratadas como específicas, quando na verdade são estruturais. Não existe socialismo sem feminismo, sem antirracismo, sem enfrentamento à LGBTfobia e sem defesa da natureza.
O PSOL deve ser o espaço que acolhe essas lutas sem pretender comandá-las, oferecendo horizonte estratégico, colaboração nacional e tradução institucional. O desafio é transformar resistências dispersas em força política unificada, construir convergências sem apagar diferenças, e articular a diversidade das lutas num projeto socialista comum.