Marielle Franco se apresentava, sempre que ia nos eventos ou dava entrevistas, mais ou menos assim: “sou Marielle Franco, mulher, negra, mãe, cria da favela da Maré e estou nesse lugar da política”. A frase era, ao mesmo tempo, uma afirmação da sua identidade e uma plataforma política.
O vício de linguagem de Marielle ao repetir a expressão “nesse lugar” em praticamente todas as suas falas, quase como uma vírgula, expressava seu desejo de construir uma política fortemente ancorada no território do Rio de Janeiro, preocupada com os problemas cotidianos da cidade e das favelas, das mulheres que lutam para criar seus filhos e filhas. Foi por isso que escolhemos Nesse lugar da política — um mandato interrompido como título do livro em homenagem à vereadora, publicado pela Fundação Lauro Campos e Marielle Franco, em 2024. A obra homenageia seu mandato de vereadora, a expressão institucional resultante de uma militância de mais de dez anos pelos direitos humanos e na construção de seu partido, o PSOL.
Para quem não conhece, o Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, reúne 16 favelas e tem aproximadamente 140 mil moradores que têm suas vidas afetadas pela violência cotidiana, fruto da disputa entre tráfico, milícias e o Estado. Ser mulher, negra, nascida e criada em uma favela do Rio de Janeiro diz muito sobre o que é ter sua vida atravessada pela barbárie diariamente, desde sempre.
Marielle foi assassinada porque seu trabalho tornou-se empecilho para grupos criminosos. Seu legado ficou e cresce nas lutas
Ser vereadora do Rio de Janeiro e estar no lugar da política era o desejo de uma geração feminista, negra, que ocuparam as ruas e as praças: Occupy, Primaveras, Ni Una a Menos, Marcha das Mulheres Negras. Eleita com cerca de 46 mil votos em 2016, Marielle corporificou essas lutas, assim como outras eleitas naquele período: Áurea, Fernanda, Sâmia, Talíria, dentre outras.
O mandato durou apenas um ano e dois meses, mas seus projetos, ações e debates seguem conectados com as pautas mais fundamentais sobre os rumos do país. A urgência de sua luta é ainda mais evidente hoje, quando o Rio de Janeiro e o Brasil enfrentam crises institucionais recorrentes, violência extrema e o avanço de grupos armados no controle de territórios. E nos traz questões: quem elegeremos em 2026? Como avançaremos com as nossas lutas?
Não podemos esquecer jamais o significado político do atentado que também vitimou Anderson Gomes. Sabemos hoje que seus algozes queriam atingir um setor da política fluminense. Mas é crucial entender que a decisão de ceifar a vida de Marielle — e não a de um outro correligionário de seu campo — passa por seu perfil, pelas bandeiras representadas em seu próprio corpo e, claro, pela sua atuação, ainda tão inicial, porém rascante, incisiva, certeira.
Essa mulher, negra, lésbica, nascida e criada na Maré e mãe jovem foi exceção em diversos quesitos: meritocrático, por fazer parte da miúda fatia de 1% de mulheres saídas da favela que chegam ao mestrado; e democrático, por ser eleita vereadora, representando a esperança de significativa parcela da sociedade numa vida melhor. Era isso também que queriam atingir para além de eliminar uma figura cujo trabalho passaria a criar empecilhos reais a grupos criminosos.
Hoje, quase 8 anos após sua morte, o legado de Marielle Franco segue inspirando movimentos de mulheres, pessoas negras, LGBTQIAPN+ e moradores de favelas em todo o país. Sua bandeira pela vida das mulheres negras continua sendo o centro de uma luta que, como lembrou Renata Souza, “é dolorosa e guarda marcas profundas, mas é urgentemente necessária”.
Marielle foi uma mulher de sorriso largo e abraço apertado. Uma liderança vibrante, generosa, que acreditava na política como ferramenta de amor e de justiça. Perdemos uma vereadora, uma amiga, uma companheira de luta. Ganhamos a dor, a luta por justiça e a necessidade de outras como ela se elegerem.
O Brasil, por sua vez, ganhou um símbolo político que transcende nossas lembranças e representa o recorte das histórias de muitas lutas por transformação social e política.