Em duas décadas após o registro oficial, o PSOL cresceu, amadureceu e atuou de forma destacada em importantes acontecimentos da história recente de nosso país, consolidando-se como um partido fundamental para a renovação das ideias de esquerda e em uma força política com a ousadia e a disposição de disputar ativamente a hegemonia na sociedade brasileira enquanto uma alternativa de esquerda, combativa, socialista e democrática para milhares de lutadoras e lutadores sociais.
Ao mesmo tempo, nos últimos dez anos de nossa existência, o Brasil e o mundo passaram por profundas mudanças, impulsionadas pela aceleração das transformações do sistema capitalista. A reestruturação produtiva, combinada com as inovações tecnológicas, atingiu indústria e serviços, levando à plataformização, uberização, pejotização e outros mecanismos que, em resumo, determinam a precarização do mundo do trabalho, com enormes consequências na organicidade social e no processo político, com a drástica redução de vínculos coletivos e de compartilhamento de identidades, o que favoreceu o acesso direto e individualizado a novas formas de sociabilidade, muitas através do ambiente digital controlado por poucas big techs. A percepção do Estado como garantidor de direitos é substituída por uma percepção que o vê como algo que atrapalha, que só controla, cobra e pune.
Do ponto de vista das lutas de resistência, até meados da segunda década do Século XXI, vimos movimentos contra o avanço do neoliberalismo e da globalização, como protestos contra a OMC em Seattle, o movimento Occupy e o Fórum Social Mundial, ao lado de manifestações como as revoltas no mundo árabe, o movimento dos “indignados” na Espanha e as Jornadas de Junho de 2013 no Brasil, cujas características foram a heterogeneidade e a ausência de lideranças e de projetos políticos definidos, havendo o questionamento aos limites da democracia liberal, bem como a permanente disputa de hegemonia entre a esquerda e a extrema-direita. Esse era o cenário do que estava em jogo no ciclo político que se iniciou com a crise de 2008. Foi nesse contexto que a extrema-direita saiu de um longo ostracismo e voltou a ter protagonismo e a vencer eleições com ideias radicais, retórica antissistema e a disseminação de ódio, ocupando o vácuo deixado pelos setores neoliberais “clássicos” e também pela ausência de alternativas globais à esquerda.
Nos últimos dez anos, a resistência popular continuou, como os levantes estudantis no México e Estados Unidos, os movimentos de contestação à ordem na Colômbia e Equador, o “Fora Cunha” e o “Ele não”, protagonizados por mulheres no Brasil, o levante feminista na Argentina, os coletes amarelos na França e a explosão social de 2019 no Chile. Porém, a extrema-direita passou a ser uma alternativa real de poder, com enraizamento social e eleitoral, vencendo eleições, como no Brasil e nos Estados Unidos. Foi também nesse período que a gravidade da crise climática se revelou em toda a sua plenitude. A ameaça existencial representada pelas mudanças climáticas adiciona um ingrediente decisivo para uma etapa histórica marcada ainda mais pela insegurança, o medo, o individualismo e o negacionismo científico.
O PSOL soube fazer a leitura desses momentos difíceis da história recente do Brasil e do mundo. Mesmo com críticas às gestões petistas no período 2003–2016, identificamos corretamente a “virada de chave” do ascenso das forças conservadoras. Foi assim na denúncia do golpe contra Dilma, na participação na campanha pela liberdade de Lula, no enfrentamento à criminalização da política promovida pela Lava Jato, na construção da resistência a Bolsonaro e na decisão histórica de participação na frente eleitoral que venceu as eleições presidenciais de 2022. Em síntese, compreendemos que a luta política no Brasil, como no mundo, havia mudado radicalmente. De um governo petista que havia derrotado o PSDB e tinha como sua oposição mais à direita siglas como PFL/DEM, o país chegou a ser governado por um fascista e tem hoje uma oposição de extrema-direita com densidade eleitoral.
Hoje, estamos na base parlamentar do governo, mas demarcamos nossas posições nos momentos em que isso se faz necessário, como no lançamento de candidatura própria à presidência da Câmara contra Arthur Lira e Hugo Mota, e votando contra o arcabouço fiscal, pois sabemos que o pacto de governabilidade expresso em torno das regras fiscais mal garante os gastos sociais compensatórios e impede maior protagonismo do Estado na ampliação de investimentos. Também temos sido contrários à proposta de exploração de petróleo na Foz do Amazonas e cobramos um posicionamento firme do governo diante do genocídio promovido por Israel na Faixa de Gaza.
O PSOL cresceu muito politicamente. A chegada, em 2016, de militantes vindos do PSTU e, logo depois, em 2017, de Guilherme Boulos e diversas lideranças do MTST, contribuiu enormemente para nosso enraizamento e qualidade política. A chapa presidencial Boulos–Sônia Guajajara, em 2018, foi uma demonstração de nossa capacidade de diálogo com movimentos sociais reais e de formulação de um projeto político para o Brasil a partir de uma visão compartilhada entre partido político e segmentos sociais efetivamente em luta.
Nos conectamos com o melhor das lutas antirracista, feminista, ambiental, sindical, estudantil, LGBT e por direitos humanos no Brasil” “Acertamos em identificar a “virada de chave” do avanço das forças conservadoras. Entendemos a etapa de ameaça existencial, com crise climática, medo, individualismo e negacionismo científico”
O PSOL se conectou ao que há de melhor na luta popular antirracista, feminista, ambientalista, sindical, estudantil, antilgbtqifóbica e por direitos humanos no Brasil. Atuamos com combatividade em temas centrais como o combate à crise climática, a defesa dos direitos humanos, uma radical democratização do Estado e suas instituições — passando pela condenação e prisão de Bolsonaro e todos os golpistas —, dentre outras lutas. Respeitando a autonomia e especificidades dos movimentos, temos conseguido encadear as mais diversas reivindicações numa plataforma política — como O Direito ao Futuro, em 2022 — que nos orienta na luta anticapitalista cotidiana e também para a disputa de projetos de sociedade. Obviamente, há muito o que avançar, em especial nos segmentos mais precarizados da classe trabalhadora, nas favelas e periferias dos centros urbanos, no Norte e Nordeste, nas diferentes realidades do interior do país, e nas suas diversidades regionais.

Outro elemento característico desses últimos dez anos do PSOL foi o crescimento numérico e qualitativo de nossas bancadas parlamentares, com diversidade de perfis, de frentes de luta, mas com reconhecida combatividade e sempre se destacando na ação parlamentar em conexão com sua base social. Nesse aspecto, destaca-se o expressivo número de mulheres eleitas. Certamente, as eleições municipais de 2016 foram um marco histórico com a eleição, entre outros e outras, de Marielle Franco (com votação expressiva) no Rio de Janeiro. O PSOL, pela ação de sua militância, foi o espaço político-partidário em que desaguaram fortes representações das lutas das mulheres e, em especial, de mulheres negras — o que seria confirmado em 2018 com a conquista de mandatos federais por diversas companheiras, além da eleição de outras mulheres negras, desde 2018 até hoje e, mais recentemente, com protagonismo de mulheres trans, onde se destaca Erika Hilton.
O PSOL cresceu, em uma década, de três para 14 deputados e deputadas na Câmara dos Deputados. Pulou de 120 mil para mais de 330 mil filiados. Elegeu seus primeiros prefeitos de capital em Macapá e Belém e tem quadros de ponta no ministério do presidente Lula. Fez isso sem se vender ou se render; sem renunciar a sua identidade ou de suas bandeiras; sem deixar de reivindicar uma esquerda renovada, anticapitalista e de luta; sem abandonar suas causas ou se imiscuir no jogo da velha política marcada pelo fisiologismo e pela corrupção. Ainda não somos o maior partido do Brasil. Mas somos certamente o mais diverso, representativo e combativo. Um orgulho para todos e todas que constroem o PSOL.