O PSOL completa 20 anos de registro oficial como uma das principais referências da esquerda brasileira e latino-americana. Nesse período, o partido avançou como ponto de convergência de lutas sociais, da juventude e de movimentos populares, defendendo um horizonte de transformação estrutural que, embora ainda genérico, segue dependendo profundamente da luta social para que tenha repercussões fortes na vida interna do partido e formate nosso perfil de modo mais claro nesta terceira década do século.
O registro oficial do partido, em 15 de setembro de 2005, consagrou institucionalmente o esforço dos agrupamentos fundadores e, mais que isso, uma experiência de combatividade e pluralidade que já se mostrava politicamente necessária diante dos rumos de adesão do governo Lula I aos ditames do mercado. Ao contrário do que muitos analistas supunham, não se tratou apenas de uma dissidência passageira do PT. Já nos seus primeiros e decisivos dez anos, entre a constituição, a legalização e a virada à direita na conjuntura que viria em 2014, o PSOL se afirmou como voz consequente da oposição de esquerda, denunciando os limites da conciliação de classes e apontando a urgência de um programa anticapitalista.
Assim, o partido conseguiu ser abrigo para novos e importantes companheiros oriundos do PT e de movimentos sociais de todo tipo — de direitos humanos, do sindicalismo, do movimento popular urbano e rural, da juventude, da negritude, de mulheres e LGBTQIA+. Com perfil anticapitalista, combativo e plural internamente, pudemos somar mais forças, avançar institucionalmente nas várias eleições e transcender nossa dimensão inicialmente limitada.
Em 2006, a candidatura de Heloísa Helena à Presidência da República já havia projetado o PSOL nacionalmente, com quase 6,6 milhões de votos. Mas nossa afirmação de perfil e crescimento institucional, com participação nas grandes batalhas daquele período, teve outros momentos de destaque. Um exemplo foi o crescimento no Rio de Janeiro, graças à chegada de Chico Alencar, Milton Temer, Eliomar Coelho e da adesão ao projeto do então jovem defensor dos direitos humanos e da população carcerária, Marcelo Freixo. Eleito deputado estadual em 2006, Freixo se destacou como protagonista de denúncias e chamado à luta contra as milícias, presidindo a histórica CPI das Milícias da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), em 2008, o que lhe deu projeção nacional.
No Rio Grande do Sul, a presença de Luciana Genro foi igualmente importante para a construção e projeção do partido. Fundadora da sigla e liderança reconhecida pela coerência de sua trajetória, conquistou cerca de 9% dos votos na eleição para a prefeitura de Porto Alegre em 2008. Naquela ocasião, numa frente de esquerda com o PCB e o PSTU, o partido obteve 5,7% do total de votos para prefeito em Fortaleza, com a candidatura de Renato Roseno (hoje deputado estadual no Ceará). Chico Alencar ficou com 1,8% no Rio e Hilton Coelho com 3% dos votos em Salvador.
Em 2010, nossa bancada federal eleita era de três deputados: Ivan Valente (SP), Chico Alencar e Jean Wyllys (RJ). Em 2012, com a “primavera carioca” de Freixo candidato a prefeito, o PSOL obteve 28% dos votos válidos para o executivo municipal e elegeu quatro vereadores. Em Porto Alegre, o partido emplacou dois vereadores: Pedro Ruas e Fernanda Melchionna, hoje deputada federal das mais combativas.
Ventos reacionários
O agravamento da crise econômico-financeira internacional levou o capital financeiro e os conglomerados econômicos a aumentarem brutalmente as pressões sobre os governos de Dilma Rousseff, que produziu sucessivos ajustes. No segundo mandato de Dilma, a nomeação de Joaquim Levy — ex-diretor do Bradesco — para o Ministério da Fazenda corroeu a base social da vitória de 2014. Apesar dos avanços pontuais no combate à fome e na inclusão da juventude trabalhadora negra nas universidades, os governos petistas não tinham superado (como não superaram até hoje) a conciliação de classes.
O impeachment de Dilma entre 2015 e 2016 faria o processo de experiência popular com o PT retroceder e o próprio espaço do PSOL se reduzir, dando lugar ao crescimento da extrema direita, que já começara a mostrar força nos atos e marchas de 2014 e 2015. O governo de Temer, com suas contrarreformas trabalhista e previdenciária, preparou o terreno para a ascensão do autoritário Bolsonaro. Apesar de nadar contra a corrente, o PSOL avançou e conquistou em 2014 — ano da campanha a presidente de Luciana Genro — uma bancada de cinco deputados. Em 2018, ano da trágica vitória de Bolsonaro, a bancada federal do partido saltou para 10, com dezenas de parlamentares estaduais e municipais, incorporando pautas da juventude e dos movimentos sociais.
O PSOL precisa escolher seu caminho: não basta crescer institucionalmente; é preciso enraizar-se nos setores mais explorados e ligar-se às suas lutas
A necessidade da unidade contra Bolsonaro passou a orientar a intervenção do partido. O PSOL manteve enraizamento em lutas sociais diversas, como as ocupações urbanas do MTST, nas lutas das universidades, em sindicatos combativos, em coletivos culturais das periferias, movimentos feministas, antirracistas, LGBTQIA+, ambientalistas e indígena. O partido também construiu relações com organizações de esquerda na América Latina e no mundo. Mas o perfil político anticapitalista e de combatividade do PSOL ficou empalidecido, pois uma ala da liderança compreendeu erroneamente que a necessária unidade antifascista nas lutas e nos parlamentos, devido à conjuntura desfavorável, impunha também diluir nosso DNA antissistêmico.
Nosso crescimento institucional trouxe novos e importantes desafios. O PSOL segue com baixa representação orgânica junto aos setores mais organizados da classe trabalhadora, sobretudo nas fábricas e polos industriais, e tem inserção ainda pequena em cidades médias e pequenas, o que limita seu alcance no país. Sofre também a pressão dos privilégios trazidos pelo aumento significativo dos fundos eleitoral e partidários, numa acomodação que é favorecida pela ausência de contrapesos internos que poderiam nos dar uma vida orgânica mais militante e democrática, em que a deliberação da base pudesse influenciar mais diretamente os rumos do partido. Nesse contexto, proliferam, como se fossem novidade, teses e propostas reformistas — que sugerem ser necessário e útil deixar o socialismo para os dias de festa.

O PSOL precisa decidir qual será seu caminho. Não basta crescer institucionalmente: será necessário ligar-se de forma concreta e orgânica aos setores mais explorados da classe trabalhadora e às suas lutas cotidianas. Só assim poderá deixar de ser apenas uma referência entre outras e se tornar, de fato, uma alternativa capaz de disputar o futuro do país com um projeto socialista, ecológico, antirracista, feminista — numa palavra: emancipador. Nossa orientação deve ser, sim, a da unidade antifascista, mas sem que renunciemos às reivindicações do povo trabalhador e da mobilização social como método de luta central.
Em tempo: o “caso” de Marcelo Freixo, hoje no PT e presidente da Embratur, vale a reflexão. Freixo perdeu sua capacidade de liderança, entre outras razões, porque suas ambições eleitorais acabaram falando mais alto. Ao buscar viabilizar candidaturas majoritárias, aceitou compromissos com setores reformistas e inclusive burgueses, o que diluiu seu perfil combativo, enfraqueceu sua referência e o afastou do PSOL. Tornou-se uma figura menor no cenário político do Rio de Janeiro. A trajetória serve também como alerta sobre os riscos da adaptação institucional para um partido que pretende ser uma alternativa socialista.