Em reunião realizada neste sábado, dia 7 de março, o Diretório Nacional do PSOL decidiu rejeitar o ingresso em uma federação com PT-PCdoB-PV e renovar a federação atualmente existente com a Rede. O partido indicou, ainda, o apoio a Lula no primeiro turno das eleições de 2026.
A resolução sobre federação partidária foi aprovada com 76% dos votos favoráveis e 24% dos votos contrários. A reunião aprovou, também, uma resolução sobre conjuntura nacional e outra sobre conjuntura internacional.
Leia, abaixo, as resoluções aprovadas:
RESOLUÇÃO SOBRE FEDERAÇÃO PARTIDÁRIA
07 de março de 2026
Considerando:
1. Que o PSOL tem como uma de suas tarefas centrais para esse período histórico o enfrentamento à extrema direita e, portanto, tem pautado sua atuação pela unidade da esquerda e do campo progressista e popular.
2. Que, diante disso, o PSOL tem atuado de forma consequente compreendendo a importância do apoio a reeleição de Lula em 2026, cumprindo um papel importante na disputa de uma agenda política, social e econômica em sintonia com as urgências do povo trabalhador.
3. Que todas as posições em debate atualmente no partido sobre Federação são legítimas e devem ser respeitadas.
4. Que a experiência de 4 anos com a Federação PSOL-REDE tem um sentido positivo. Construímos unidade em temas centrais e estabelecemos diálogos ponderados para lidar com as diferenças. Seguimos crescendo com consistência programática num contexto adverso para o conjunto das esquerdas.
5. Que a REDE, em diálogo com nosso partido, apresentou sua posição por manter a Federação.
6. Que o PT, recentemente, fez um convite ao PSOL para que integre a Federação Brasil da Esperança (PT–PCdoB–PV).
7. Que, em relação a este convite, a atual legislação que trata das federações não apresenta qualquer salvaguarda democrática que proteja os partidos menores que optam por federar com partidos maiores e que isso teria reflexos em decisões muito importantes como, por exemplo, as alianças e táticas eleitorais que já estão em curso nos estados, comprometendo nossa autonomia.
8. Que nosso entendimento é o de que a unidade com pluralidade fortalece o campo progressista e a luta contra a extrema direita, ampliando a diversidade e a quantidade de vozes e de representação social. Portanto, no sentido de preservar nossa autonomia política, não ingressaremos em uma nova articulação de federação neste momento.
9. Que o PSOL vem se afirmando com uma identidade política e combativa reconhecida na sociedade capaz de dialogar com diferentes setores e representar causas fundamentais do povo brasileiro, cumprindo não só um papel nesta conjuntura mais imediata, mas tendo muito a oferecer ao futuro da esquerda brasileira.
10. Que reconhecemos os desafios da cláusula de barreira, mas temos bases políticas concretas para superá-la com uma ação partidária unitária, fortalecendo as chapas em todos os estados, trabalhando na ampliação e garantindo uma política de financiamento bem estruturada.
Decidimos:
Renovar a Federação PSOL-REDE, autorizando a Executiva do PSOL a seguir com as tratativas políticas e iniciar, ainda no mês de março, os encaminhamentos jurídico-administrativos.
Diretório Nacional do PSOL
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PSOL COM LULA PARA LIVRAR O BRASIL DO BOLSONARISMO
07 de março de 2026
Considerando que:
01. O PSOL mantém a sua prioridade política bem definida: derrotar a extrema direita. Desde a virada na conjuntura brasileira, com o golpe contra Dilma Rousseff, o PSOL assumiu a responsabilidade histórica de fortalecer a unidade das esquerdas para resistir aos retrocessos e reconstruir o Brasil. Com essa bússola, lutamos contra o governo Temer e as suas reformas, construímos uma oposição incansável ao governo Bolsonaro e apoiamos Lula, desde o primeiro turno, em 2022.
02. A vitória eleitoral em 2022 representou uma importante barreira de contenção ao avanço da extrema direita, mas não foi suficiente para livrar o Brasil do bolsonarismo. Essa continua sendo, até os dias de hoje, a tarefa mais importante da nossa geração. A extrema direita apenas trocou de trincheira e continuou a operar no Congresso Nacional, nas redes sociais, nas ruas, no mercado financeiro e em instituições que fingem neutralidade enquanto defendem privilégios de uma pequena minoria.
03. Nunca subestimamos esses perigos diante de um país fraturado, como demonstrado com a tentativa de golpe de 08 de janeiro de 2023. Por essa razão, o PSOL está na base do governo Lula no Congresso Nacional, lutando pelo programa que foi eleito nas urnas, sem prejuízo à nossa autonomia e independência para defender as reformas estruturais em favor do povo brasileiro e para enfrentar a verdadeira sabotagem promovida não apenas pelo bolsonarismo, mas também pelo centrão e Faria Lima.
04. Em 2026, é preciso unir forças novamente para vencer o bolsonarismo e preservar o cordão sanitário que já estabelecemos contra as forças mais reacionárias do nosso país. As eleições deste ano não serão um passeio e a reeleição de Lula não está garantida, em um contexto de luta política, social e ideológica de alta intensidade. Mais uma vez, enfrentaremos uma rede poderosa de mentiras favorecida pela impunidade dos grandes oligopólios de mídias sociais do Vale do Silício.
05. Sabemos que é possível vencer. Como o PSOL tem defendido, o caminho para enfrentar a sabotagem é colocar o povo mobilizado na equação da governabilidade. Foi assim que colecionamos vitórias importantes contra o neofascismo brasileiro nos últimos meses. Em função do julgamento sobre a tentativa de golpe de 2023, Jair Bolsonaro e o núcleo duro de generais ao seu redor foram condenados e presos. Apesar do papel do Banco Central e dos juros altos, houve a redução do desemprego e da inflação e, não menos importante, a isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais e a taxação dos que ganham acima de 50 mil reais por mês. Diante dos ataques de Donald Trump ao Brasil, mostramos quem são os verdadeiros e os falsos patriotas e derrotamos a proposta do tarifaço. Também em reação ao CongressoInimigo do povo, enfrentamos a PEC da Blindagem com forte mobilização popular. Depois de anos de luta por justiça, os mandantes do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes foram finalmente condenados.
06. Mas como provado pelas pesquisas recentes, apesar disso, o país continua polarizado e dividido. Mesmo com a condenação e a prisão de Jair Bolsonaro, a extrema direita produziu uma grande quantidade de lideranças, em diversos partidos, que seguem ativas e com disposição de ir ao enfrentamento nas ruas e nas redes. Não menos importante é o papel de Donald Trump na América Latina com a ofensiva militar no mar do Caribe, o sequestro de Maduro e Cília Flores, o sufocamento de Cuba, a disputa pelo controle no canal do Panamá, a imposição do tarifaço, a agressão à soberania dos países e a interferência objetiva em processos eleitorais. Por isso, o PSOL mantém a unidade da esquerda no centro da política no próximo período.
07. O momento é grave, repleto de perigos, e exige sínteses das esquerdas. Assim, apesar de dispor de excelentes nomes, o PSOL não apresentará uma pré-candidatura para a disputa eleitoral à presidência. A prioridade, em nível nacional, deve ser a construção da unidade entre os setores populares para assegurar a derrota da extrema direita. Esse processo de diálogo deve envolver elementos programáticos, afinal a amplitude necessária para isolar o bolsonarismo precisa se combinar com o entusiasmo e o engajamento dos setores populares em defesa de um projeto de país justo e soberano.
08. Queremos contribuir com propostas de aprofundamento das mudanças que o nosso país tanto precisa. É o que já demonstramos na luta contra a escala 6×1, pela tarifa zero e por justiça tributária: os BBBs, bancos, bets e bilionários precisam pagar imposto nesse país e aliviar a carga sobre os mais pobres e a classe média. Precisamos multiplicar as vozes verdadeiramente patrióticas na defesa da nossa soberania nacional e da paz mundial justa, garantindo que o Brasil não ficará de joelhos perante Donald Trump, não será colônia do capital financeiro, nem base de guerra. Atuamos na defesa inegociável do meio ambiente, dos territórios e dos povos originários, porque a crise climática já chegou e quem a sente primeiro é sempre o povo pobre. Lutamos pelo fim da violência e pela garantia de dignidade para as maiorias sociais, porque não queremos apenas a representação simbólica das mulheres, do povo negro e das LGBTI+.
09. Na luta por um projeto de país justo, assumimos um segundo compromisso: o de mudar radicalmente a composição deste Congresso que hoje governa para os de cima e criar as condições para impedir novas chantagens institucionais. O Congresso não é um poder neutro, hoje ele funciona como escritório político dos bancos, do ruralismo e dos donos do capital. Ampliar as bancadas de parlamentares combativos e socialistas do PSOL pelo país é uma necessidade para virar o jogo em favor do andar debaixo.
Diante disso, o Diretório Nacional do PSOL resolve:
10. Desde já, assumimos um compromisso com o povo brasileiro: iremos, desde o primeiro turno, ajudar a reeleger Lula Presidente e livrar o país do pesadelo bolsonarista.
11. A Convenção Eleitoral Nacional do PSOL, a ser realizada no prazo da justiça eleitoral, terá as seguintes tarefas: referendar a coligação eleitoral nacional; aprovar a plataforma programática que iremos apresentar para a coligação e batalhar pela sua concretização; e definir a tática eleitoral mais amplamente, estratégia de distribuição dos recursos do fundo eleitoral, política de alianças e temas afins.
Em relação às prioridades nacionais do partido:
12. Tomamos como prioridade a superação da cláusula de barreira nas eleições de 2026; dela depende a continuidade do nosso projeto político e a construção de uma alternativa socialista e democrática para o Brasil. Esse é um esforço possível e exige compromisso coletivo de todo o partido.
13. Lutaremos para ampliar a bancada parlamentar do PSOL tanto em nível federal quanto nos estados, com o compromisso de enfrentar a extrema direita e, acima de tudo, de defender as necessidades históricas e emergenciais do povo brasileiro.
14. Temos a oportunidade histórica de eleger uma senadora do partido no Rio Grande do Sul com Manuela D’Ávila, pelo seu posicionamento nas pesquisas eleitorais e por já ter recebido o apoio de toda a esquerda gaúcha. Por essa razão, o fortalecimento e a priorização, desde a pré-campanha, ao Senado no Rio Grande do Sul é uma tarefa estratégica central do partido.
15. Até a janela partidária, intensificamos uma campanha para convidar personalidades políticas alinhadas com os nossos princípios, lideranças políticas e de movimentos sociais e ativistas a se filiarem e serem candidatos pelo PSOL. Essa tarefa é coletiva e deve ser realizada por todos os nossos parlamentares, diretórios e militantes.
Em relação às candidaturas ao governo e ao Senado:
16. Nosso objetivo nesta eleição não será o de utilizar a disputa com o único intuito de projeção ou construção de figuras públicas. Os estados deverão, quando possível, priorizar a unidade do campo progressista, desde o primeiro turno, em torno da disputa de Governo que represente o melhor nome para derrotar a extrema-direita, guardadas as devidas especificidades quando isso for inviabilizado por composições ou posicionamentos que comprometam o perfil partidário.
17. Em estados que o PSOL tiver candidatura própria ao governo, os esforços partidários devem ser concentrados na construção de chapas federais capazes de alcançar a cláusula de barreira.
18. Em relação ao Senado, o partido irá empreender esforços na sustentação de candidaturas que se apresentarem efetivamente competitivas, sempre que houver condições concretas para a unidade; Tendo Manuela D`Ávila à frente, podemos ampliar as nossas campanhas ao Senado que são apoiadas pelo conjunto da esquerda em seus estados, é esse o esforço já empreendido com a pré-candidatura de Áurea Carolina ao senado em Minas Gerais.
Em relação à pré-campanha:
19. Além de uma prioridade na pré-candidatura de Manuela D’Ávila que tem chances efetivas de conquistar uma vaga ao Senado pelo PSOL, devemos ter uma tática global e partidária de investimento da pré-campanha nas pré-candidaturas à Câmara de Deputados, seguindo a seguinte ordem de prioridade:
a. Estados em que a federação ultrapassou a cláusula, mas há risco de não ultrapassarem nas eleições de 2026 e que precisam de atrair figuras externas para conseguir completar o feito;
b. Estados em que a federação ultrapassou a cláusula, mas há risco de não ultrapassarem nas eleições de 2026 por conta da montagem chapa federal;
c. Estados em que a federação ultrapassou a cláusula e há chances de ampliação da bancada federal e senado;
d. Estados em que a federação não ultrapassou a cláusula, mas que há chances de atração de figuras que contribuíram para o cumprimento da cláusula.
20. Caberá à Executiva Nacional do PSOL, com apoio do Grupo de Trabalho Eleitoral, concluir a proposta de investimento na pré-campanha à nível nacional.
21. O GTE Nacional deverá continuar os trabalhos de projeção de cenários eleitorais e acompanhamento da tática eleitoral dos estados.
Diretório Nacional do PSOL
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RESOLUÇÃO DE CONJUNTURA NACIONAL DO PSOL: 8M NAS RUAS E FIM DA ESCALA 6X1
O Brasil e a América Latina vivenciaram, já nos primeiros dias de 2026, um dos mais recentes e brutais ataques à soberania da região nos últimos 50 anos. O ataque à Venezuela é de extrema gravidade e evidencia a ofensiva da extrema-direita imperialista no sentido de reativar práticas de intervenção direta sobre os povos latino-americanos. Reafirmamos nossa solidariedade irrestrita à Venezuela e a Cuba, bem como a defesa incondicional do direito à autodeterminação dos povos. Abaixo o imperialismo! A influência de Donald Trump sobre a política global — e, em especial, sua capacidade de interferir direta ou indiretamente no processo político e eleitoral brasileiro — constitui um fator permanente de tensão. As experiências recentes da Argentina e de Honduras demonstram como avanços democráticos podem ser rapidamente revertidos em contextos de polarização social, crise econômica e interferência externa, servindo como alerta para o Brasil e para toda a região. Em meio à escalada de conflitos e à ofensiva as bandeiras da soberania dos povos e do anti-imperialismo voltam a tremular com força renovada, reafirmando-se como horizonte político das lutas contra a dominação e a espoliação imperialista.
No plano nacional, apesar da instabilidade internacional, há elementos que apontam para uma melhora relativa da situação econômica e social. O controle da inflação dos alimentos trouxe alívio ao cotidiano da população, sobretudo entre os setores mais vulneráveis. A retomada da pauta da soberania nacional, impulsionada pelo tarifaço imposto por Donald Trump, recolocou no centro do debate público os limites da dependência externa e a necessidade de fortalecer a autonomia econômica e política do país. Os indicadores econômicos apontam para uma recuperação significativa, e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até cinco mil reais contribui para um cenário de maior otimismo em relação ao governo Lula.
No campo político, a prisão de Jair Bolsonaro provocou, em um primeiro momento, a fragmentação do campo da extrema-direita. Entretanto, esse setor segue em processo de reorganização. A candidatura de Flávio Bolsonaro desponta como um dos principais nomes capazes de disputar o campo conservador, enquanto outras candidaturas de direita permanecem fragmentadas e sem capacidade de se consolidar como alternativa viável até o momento.
Apesar da derrota eleitoral da extrema-direita, o centrão e esse campo político seguem hegemonizando a agenda do Congresso Nacional nos últimos três anos, impondo pautas desconectadas das demandas populares e da vontade expressa nas urnas. Propostas como a PEC da Blindagem e o PL da Dosimetria expressam esse projeto de bloqueio institucional, corretamente enfrentado pelo veto presidencial no dia 8 de janeiro. Trata-se de um Congresso inimigo do povo, marcado pelo fisiologismo e pela corrupção, que atua sistematicamente para limitar avanços sociais e democráticos.
Os atos convocados no último domingo por Nikolas Ferreira é uma tentativa de rearticulação da extrema-direita para as eleições deste ano, demonstrando que ainda preservam capacidade de mobilização e densidade eleitoral. Diante desse cenário, avaliamos que o país vive um equilíbrio frágil. Essa situação exige cautela, mas não permite a paralisia política. A unidade das forças democráticas, a resistência organizada, a mobilização popular e a disputa cultural são elementos centrais para enfrentar a conjuntura e impedir retrocessos. As recentes pesquisas apontam que o processo eleitoral será polarizado. O debate da segurança pública, assim como o caso do Banco Master podem trazer ainda mais instabilidade.
Nesse sentido, o PSOL deve cumprir um papel ativo e protagonista. É fundamental que o partido apresente uma agenda política capaz de renovar e fortalecer a aliança com o presidente Lula e com a frente democrática, ao mesmo tempo em que disputa corações e mentes em torno de um projeto político anticapitalista, popular e socialista.
O PSOL reafirma seu compromisso histórico com a defesa do meio ambiente, dos povos indígenas e das comunidades tradicionais. Nesse sentido, celebramos a revogação do decreto 12.600 como resultado da luta dos povos indígenas e reconhecemos o esforço do Ministro Guilherme Boulos e da Ministra Sônia Guajajara, no sentido de abrir o diálogo e garantir a revogação do decreto.
O PSOL deve ser linha de frente na luta pelo fim da escala 6×1, atuando com prioridade absoluta pela aprovação da PEC que encerra esse modelo de exploração do trabalho. Além disso, diante do desafio de superar a cláusula de barreira, é imprescindível que as direções estaduais fortaleçam as chapas proporcionais para a Câmara dos Deputados, buscando lideranças políticas, militantes, ativistas e figuras públicas comprometidas com o projeto do partido e capazes de contribuir para o fortalecimento eleitoral e político do PSOL.
Convocamos toda a militância do PSOL a se somar aos atos do 8 de março, para marchar coletivamente contra todas as formas de violência de gênero, em defesa da vida, da dignidade e da liberdade das mulheres. Diante do aumento significativo da cultura da misoginia que tem como consequencia direta a escalada dos casos de violência contra as mulheres em nosso país. Tais crimes além de terem se intensificado se mostram cada vez mais brutais. É urgente fortalecer a mobilização feminista e popular nas ruas.
7 de março de 2026
Diretório Nacional do PSOL
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RESOLUÇÃO DE CONJUNTURA INTERNACIONAL DO PSOL: DEFESA DA SOBERANIA É A DEFESA DO FUTURO
Uma nova ofensiva imperialista sob o comando de Donald Trump
Uma de nossas tarefas internacionalistas mais imediatas é a luta contra a nova ofensiva imperialista dos Estados Unidos. Há muitas razões que justificam essa necessidade histórica, em um contexto de confrontação com a China e de pressão sobre o Canadá e os aliados históricos da tríade, União Européia e Japão, para reconfigurar suas alianças em novas bases, ainda mais assimétricas. A retórica do “American First” [Estados Unidos em primeiro lugar] não é vazia e precisa ser enfrentada à altura, na medida em que Trump renuncia ao multilateralismo, ignora o Direito Internacional e questiona abertamente o papel dos organismos internacionais que o seu próprio país construiu e que os favoreceu no cenário geopolítico aberto desde o pós guerra. A imposição do tarifaço em 2025, a luta para anexar a Groenlândia, e a presença militar no Caribe são exemplos do acirramento da disputa por hegemonia global.
Os ataques de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã expressam o mais novo salto na escalada militar imperialista. Ao mesmo tempo em que Washington e Tel Aviv ampliam sua ofensiva no Oriente Médio, as potências europeias aceleram um processo de rearmamento: a França anuncia novos investimentos militares e a Alemanha promove um aumento histórico de seu orçamento de defesa, enquanto cresce o tom das tensões dentro do próprio bloco ocidental. Longe de representar episódios isolados, esses movimentos indicam que as principais potências se preparam para um cenário de confrontos cada vez mais abertos.
A guerra contra o Irã também se insere na disputa pelo controle de recursos estratégicos, em particular o petróleo, e já produz efeitos diretos na economia mundial, como a valorização do dólar e a intensificação das manobras para garantir fontes energéticas, como demonstrou a operação realizada na Venezuela em janeiro. Ao mesmo tempo, o conflito funciona como um campo de experimentação para novas tecnologias de guerra, incluindo armamentos operados por sistemas de inteligência artificial. Em conjunto, esses elementos revelam que o capitalismo em sua fase atual aprofunda sua deriva militarista e arrasta o mundo para uma nova etapa de instabilidade e confrontação internacional.
Nesse quadro, a criação recente do “Conselho de Paz”, no qual Trump se auto-intitula presidente vitalício, é um nítido exemplo dessa ofensiva geopolítica. Na contramão da “paz”, Trump naturaliza ocupações, desestabilizações e guerras, a partir de seus interesses econômicos, como é o que se vê na sua proposta para Gaza, com a construção de megaempreendimentos imobiliários, negando a história, a memória e o direito à reconstrução do povo palestino após o genocídio. Trump não tem mandato para ser árbitro, muito menos exercer poder de polícia, em uma nova ordem internacional. Dizer não ao Conselho da Paz de Trump é uma necessidade para o exercício de uma política externa altiva e soberana.
É importante considerar que a política externa trumpista convive com o aprofundamento interno do autoritarismo: a atuação da ICE tem sido marcada por deportações em massa, detenções arbitrárias e violência contra comunidades imigrantes, majoritariamente latino americanas, caribenhas e racializadas. A escalada de violência tem produzido medo e assassinato de civis, como as mortes de Renée Good e de Alex Pretti, gerando uma onda de mobilizações em Minneapolis, que, felizmente, cresceu e se espalhou por diversas cidades do país, como Los Angeles, Chicago e Boston, unindo-se a greves e outros protestos, exigindo o fim das operações e a retirada da ICE, em defesa da dignidade humana e da solidariedade entre os povos. Nesse contexto, destaca-se a firme postura de Zohan Mamdani, prefeito de Nova York, que tem se colocado publicamente contra a política anti-imigrantes, reforçando serviços sociais e acesso a direitos em tempos de repressão. Um sopro de esperança diretamente do coração do império já que a resistência interna ao Trump é estratégica para impor freios ao seu apetite imperialista.
Não é menos importante, nesse contexto, o desenvolvimento escandaloso do caso Epstein, uma articulação de exploração sexual de mulheres e meninas durante mais de uma década nos EUA. Os últimos documentos divulgados dão conta do envolvimento de figuras públicas importantes, como o próprio Donald Trump, Bill Gates e até mesmo ex-membros da família real britânica, gerando a renúncia de Morgan McSweeney, chefe de gabinete do primeiro-ministro.
As disputas do presente também se expressam no terreno simbólico. A apresentação de Bad Bunny no Super Bowl, um dos maiores palcos midiáticos do mundo, projetou a identidade latinoamericana e caribenha para o centro da cultura global em um momento de radicalização de discursos xenófobos. Ao afirmar nossas raízes diante de milhões de espectadores, o gesto converteu-se em símbolo de pertencimento e resistência cultural.
A defesa estratégica da soberania do Brasil e da América Latina
Após pouco mais de um ano de governo Trump, assistimos a uma recuperação da extrema direita em nossa região, com o crescimento da influência política de Donald Trump, abrindo espaço para uma nova fase da ofensiva imperialista dos Estados Unidos sobre a América Latina e o Caribe. Exercícios militares na costa venezuelana e reiteradas ameaças de invasão escalaram, nos primeiros dias de 2026, para uma criminosa e imoral operação que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de Cilia Flores, uma grave violação do Direito Internacional e do princípio de autodeterminação dos povos. Diante desse episódio, o PSOL reafirmou sua solidariedade ao povo venezuelano, em defesa da libertação de Maduro e Cilia, posicionando-se publicamente e participando das mobilizações realizadas em todo o Brasil.
Essa escalada não é um fato isolado, mas parte de uma estratégia mais ampla que reedita a Doutrina Monroe sob o manto de uma nova política de “segurança nacional”. A Venezuela tornou-se alvo prioritário dessa agenda, submetida a sanções econômicas e medidas coercitivas que buscam derrubar o seu regime político e ampliar o controle externo sobre seus vastos recursos naturais, especialmente o petróleo. Trump sequer tenta disfarçar seus verdadeiros interesses.
Agora estamos diante da intensificação da investida contra Cuba, aprofundando o bloqueio criminoso e multiplicando ameaças diplomáticas com o objetivo de isolar a ilha no Caribe. Enquanto Washington volta a classificar o país como uma ameaça à sua segurança e à estabilidade continental, em documento lançado em janeiro de 2026, Cuba reafirma a sua soberania e o legado das conquistas de seu povo, resistindo às tentativas de coerção que agravam as dificuldades econômicas e energéticas. Como já afirmamos em resolução recente, é criminosa a imposição de sanções, por parte de Trump, a quem fornecer petróleo para Cuba em um contexto de necessidade. Valorizamos a iniciativa do governo mexicano de enviar ajuda humanitária e defendemos que o Brasil tome medidas semelhantes. Não podemos permitir que se imponha a Cuba um cerco semelhante ao que hoje recai sobre a Venezuela. Por isso, o PSOL se somará ao Comboio Nuestra América à Havana nos dias 18 a 23 de março de 2026 e nos somamos à mobilização que está levando ajuda humanitária essencial à população cubana. Nosso objetivo é realizar uma campanha ampla de apoio solidário da esquerda brasileira somando esforços de partidos e movimentos sociais.
Não por acaso, essa ofensiva vem acompanhada da retórica populista de “combate ao narcoterrorismo”, uma fachada para justificar as pressões contra governos como o do Brasil, do México, da Colômbia e da própria Venezuela. Sob esse pretexto, busca-se legitimar uma maior intervenção política e militar na região e ampliar mecanismos de controle sobre Estados soberanos. Também merece a nossa atenção a luta pela retomada do controle do Canal do Panamá e o acordo celebrado entre Estados Unidos e Paraguai, que estabelece uma permissão para a presença e atividades militares e civis do Departamento de Guerra dos Estados Unidos neste país, facilitando seus interesses expansionistas na América do Sul. Da mesma forma, a criação de uma prisão em El Salvador e o apoio das oposições nos países supracitados.
Nessas circunstâncias, a vitória de José Antonio Kast com vantagem no segundo turno da eleição presidencial chilena em dezembro de 2025 também representou um novo impulso para a extrema direita: agora Trump terá mais um aliado ideológico de peso, ao lado de Javier Milei na Argentina e Nayib Bukele em El Salvador. A fórmula da campanha de Kast não foi uma novidade: restauração neoliberal, anticomunismo, autoritarismo e uma forte “bukelização” dos debates sobre segurança pública, com recrudescimento das políticas anti-imigratórias. A novidade é que, após anos de luta social, tendo como ápice o estalido de 2019, a versão contemporânea do pinochetismo tenha chegado ao poder com voto popular.
Todos esses acontecimentos recentes reforçam, ainda mais, a importância das eleições presidenciais que ocorrerão em 2026 em meio a um contexto de polarização política: Brasil, Colômbia, Peru, Costa Rica e Haiti elegerão seus presidentes. Pela importância geopolítica, demográfica e pelo papel de Gustavo Petro e Lula, Colômbia e Brasil estarão no centro dos holofotes dessa disputa. Nesse contexto, não será indiferente para o avanço neocolonial e imperialista em nossa região quem será eleito em cada um desses países. Pelo contrário, mais do que o futuro de cada nação individualmente, estão em disputa a soberania e a paz da nossa região. Trump também sabe disso e, ao longo de 2025, já atuou diretamente com ofertas eameaças econômicas sobre as eleições legislativas da Argentina, favorecendo aliados de Milei, e nas presidenciais de Honduras, apoiando as forças da oposição de direita. Em 2026, precisamos estar politicamente preparados para enfrentar as chantagens trumpistas, mostrando, em cada oportunidade, quem são os verdadeiros e os falsos patriotas em nosso país. Não há dúvidas que sofreremos tentativas de intervenção norte-americana, por isso a bandeira da soberania deve ser uma defesa de nosso partido durante a campanha. É o povo latino-americano quem deve decidir, sem interferência externa, quem está à altura de governar as suas nações.
Nesse sentido, favorecer relações políticas e comerciais que escapem ao controle e domínio norte-americano é progressivo, promovendo um “jogo multipolar” que fortaleça o Brasil e a América Latina diante da ofensiva imperialista dos Estados Unidos. Não é à toa que a mera existência dos Brics cause tanta irritação à Donald Trump. Mas o favorecimento de novas relações não pode se dar em bases neocoloniais, já que nossas economias precisam conseguir romper com o ciclo da reprimarização, da dependência e abrir o caminho para a diversificação tecnológica. Por isso, vemos com preocupação o conteúdo do acordo UE-Mercosul.
Por fim, a dinâmica de polarização política com a extrema direita também segue viva em outras partes do globo. A eleição da ultraconservadora Sanae Takaichi como nova Primeira Ministra do Japão anuncia o reforço de uma agenda regressiva no campo dos direitos sociais, das políticas de defesa e o endurecimento das políticas migratórias. Nesse contexto, a vitória presidencial em Portugal de António Jose Seguro, do Partido Socialista e com apoio do Bloco de Esquerda, contra André Ventura do Chega é uma boa notícia. Assim como é positivo o julgamento, em andamento, de Marine Le Pen, expressão da nova extrema direita na França que pode torná-la inelegível para a disputa de 2027. São duas contratendências importantes ao encontro macabro entre o imperialismo e a extrema direita que marca a atual conjuntura.
A luta anti-imperialista voltou a ser parte da gramática política dos nossos povos e a luta em defesa da nossa soberania é estratégica na defesa do futuro. O PSOL reforça seus compromissos históricos de solidariedade ativa entre povos oprimidos e ameaçados pela nova ofensiva do imperialismo com a certeza de que a luta contra a extrema direita e o neofascismo é a luta da nossa geração e com a convicção de que nós podemos ser vitoriosos. Somos da terra de Dandara, Zumbi e Simon Bolívar e não dobramos o joelho para fascista.
Diretório Nacional
07 de março de 2026