A juventude do DSA (YDSA) realizou no último mês a sua principal conferência nacional, em Chicago, onde reuniu mais de 200 representações de todos os estados estadunidenses. O evento aconteceu em momento decisivo da conjuntura do país, na qual o DSA tem se postulado como uma das principais forças políticas contra o governo Donald Trump.

O YDSA destacou-se nos últimos anos com sua participação nos acampamentos universitários pró-palestina, onde organizaram a luta pelo desinvestimento e boicote das instituições de ensino norte-americanas às parcerias com o estado de Israel. O Diretório Central dos Estudantes da Universidade do Estado de São Francisco, na Califórnia, foi, inclusive, capaz de conquistar essa vitória construindo uma longa e democrática luta de pressão contra a direção da universidade, inspirando milhares de estudantes a se organizarem em lutas pró-palestina, se consolidando como um dos movimentos de juventude mais importantes e ativos do país.

Mais recentemente, o DSA esteve ativo na vitoriosa campanha de Zohan Mamdani para a prefeitura de Nova Iorque, elegendo o primeiro prefeito socialista democrático da cidade e derrotando nomes da alta burocracia do Partido Democrata e do trumpismo. Também se organizam para enfrentar a polícia migratória de Trump, o ICE, em ações de solidariedade ativa e militante à juventude e à população imigrante nos EUA, além de participarem da luta e da surpreendente organização sindical ao redor do país.

Para podermos entender melhor o cenário da juventude e da organização da luta política nos Estados Unidos, entrevistamos James Hernandéz, copresidente recém-eleita da Young Democratic Socialists of America. James é estudante da Universidade Internacional da Flórida, é membro da tendência interna Bread and Roses (Pão e Rosas) do DSA, e já esteve no Brasil por duas vezes: durante a COP 30, em Belém, e em Porto Alegre na 1ª Conferência Internacional Antifascista.

FLCMF: James, como vocês vêem as perspectivas da luta contra Trump e a extrema direita? E qual foi a importância da Conferência do DSA para essa luta?

James Henández: Um dos principais temas que levamos para a convenção foi justamente reconhecer o que está acontecendo no mundo. Estamos vendo o crescimento da extrema direita não apenas nos Estados Unidos, mas internacionalmente, impulsionada também por Trump. Vemos isso com líderes como Milei e Netanyahu, vemos a extrema direita crescendo na Europa e vemos o filho de Bolsonaro ganhando maior projeção no Brasil.

Partimos do entendimento de que não há como vencer essa luta contra a extrema direita se os jovens não forem capazes de utilizar sua posição social, tanto como estudantes quanto como trabalhadores, para se organizar contra ela. Por isso, pensamos muito sobre como construir um movimento de estudantes e trabalhadores nos Estados Unidos.

Temos visto estudantes trabalhadores de graduação nos campi construindo sindicatos[1] para enfrentar as administrações universitárias e lutar por políticas melhores contra o assédio sexual, pelo fim dos cortes orçamentários nos departamentos, por aumentos salariais e por reivindicações em defesa do bem comum.

Um exemplo é a San Francisco State University (Universidade do Estado de São Francisco), onde estudantes conquistaram o desinvestimento[2] (nas relações de parceria com o estado de Israel) por meio de uma negociação aberta com a universidade. O sindicato dos professores ajudou ameaçando uma greve caso o presidente da universidade não negociasse com os estudantes. Eles conseguiram vencer.

Por isso, a tarefa da YDSA ficou mais clara: precisamos construir o partido e fortalecer nossa organização. Isso significa organizar nossos departamentos, nossos cursos, os estudantes da classe trabalhadora e os trabalhadores dos campi. Também significa preparar os estudantes para se organizarem depois da graduação, por exemplo, na Amazon, na educação e na saúde.

Queremos construir socialistas para a vida inteira, e não apenas militantes socialistas durante o período em que estão na universidade. Esses foram alguns dos principais temas da conferência.

Também discutimos muito o 1º de Maio de 2028, quando o presidente do United Auto Workers (UAW, um dos maiores sindicatos americanos) convocou uma greve geral e propôs que os sindicatos organizassem seus contratos para que expirassem em 1º de maio de 2028. Assim, seria possível realizar greves legais de trabalhadores de diferentes setores ao mesmo tempo.

Na Universidade de Oregon, por exemplo, os contratos dos estudantes trabalhadores expiram em 1º de maio de 2028. Vários sindicatos de professores e de enfermeiros também têm contratos expirando nesta data.

Portanto, existe a possibilidade de que esse seja um momento político bastante importante nos Estados Unidos. Estamos tentando descobrir como a juventude pode intervir de maneira sólida nesse processo. A preparação para uma possível greve geral em 2028.

FLCMF: No Brasil, não temos exatamente a mesma tradição de planejar antecipadamente uma greve geral dessa maneira. Você poderia explicar melhor o que está sendo preparado para 2028 e qual foi o papel dessa discussão na conferência?

James: O movimento sindical dos Estados Unidos é muito fraco. Ele está em uma posição bastante frágil desde os anos 1950, em parte por causa de políticas da extrema direita voltadas para expulsar comunistas dos sindicatos e do mercado de trabalho, além da perseguição a pessoas LGBT no mundo do trabalho.

Isso nos deixou com apenas cerca de 10% dos trabalhadores organizados em sindicatos nos Estados Unidos. Não é possível fazer uma greve geral com apenas 10% dos trabalhadores organizados.

Por isso, o motivo de estarmos planejando não é acreditar que podemos prever o momento que vai desencadear uma greve geral. Não poderíamos, por exemplo, ter planejado as operações do governo Trump em Minneapolis que acabaram provocando uma greve geral. Mas os sindicatos envolvidos haviam construído sua organização durante dois ou três anos para estarem preparados para algo assim.

Você não consegue controlar o momento em que uma crise acontece, mas consegue construir a organização. Nenhum momento político consegue se sustentar se não houver uma organização capaz de torná-lo possível.

Os estudantes trabalhadores nos Estados Unidos não poderiam ter permanecido em greve durante tanto tempo se não tivessem se filiado ao UAW e se organizado durante dois anos para construir as maiorias necessárias. Então, nossa tarefa é construir uma organização que torne algo assim possível.

Para os jovens, isso é especialmente importante. É muito comum que jovens trabalhem dentro dos campi. Também é muito comum que precisem trabalhar enquanto estudam para pagar dívidas e mensalidades. Existe, portanto, uma grande oportunidade para intervir no movimento sindical.

Vemos isso, por exemplo, no Starbucks Workers United (Sindicato dos trabalhadores do Starbucks). Muitas das pessoas envolvidas eram estudantes universitários. Também temos investido muito esforço nessa campanha.

Ao mesmo tempo, existe uma grande disposição para organizar os estudantes enquanto estudantes. Os campi são lugares onde o conhecimento é produzido. Ao organizar o campus, podemos, no longo prazo, influenciar diferentes setores da economia: engenharia, saúde, educação básica e outras áreas das quais a economia depende. Estamos, portanto, em um ponto muito importante da produção, a produção de conhecimento. É assim que estamos pensando sobre o processo até o 1º de Maio de 2028.

Internacionalismo e a resolução aprovada pelo YDSA

FLCMF: Sabemos que a sua tendência, o Bread and Roses, vinha tentando dar mais centralidade à discussão internacional. Você poderia explicar a resolução aprovada este ano e o que mudou na YDSA para que ela fosse aprovada?

James: A resolução estabeleceu uma perspectiva sobre o internacionalismo que enfatiza a luta de classes em vez da lealdade a Estados, burocracias ou partidos, inclusive àqueles que se apresentam como socialistas. Acreditamos que a única maneira de vencer e construir o socialismo é unindo a classe. E acreditamos que isso precisa acontecer para além das fronteiras, porque o socialismo não existe em um único país. É algo que precisa ser construído internacionalmente.

Essa perspectiva havia perdido força nos últimos anos, principalmente porque o Bread and Roses teve dificuldades para intervir no trabalho internacional da DSA por meio da Comissão Internacional. Algumas tendências mais ligadas ao campismo também utilizavam perspectivas de política identitária para acusar a Bread and Roses de chauvinismo ou imperialismo. Acho que o que fez esta resolução conseguir cerca de 90% dos votos foi o fato de que ela estava fundamentada em algo que poderíamos efetivamente fazer.

Um erro que cometemos nos anos anteriores foi estabelecer uma perspectiva sem definir claramente uma tarefa. O que tentei corrigir desta vez foi apresentar algo concreto que pudéssemos fazer para avançar uma política de internacionalismo baseada na luta de classes.

O título da resolução é obviamente uma espécie de exagero. Não acredito que haverá uma verdadeira greve geral internacional em 2028. Mas acredito que haverá muitas oportunidades para mobilizações conjuntas e mensagens coordenadas através das fronteiras, mesmo que não exista uma grande onda internacional de greves.

Isso nos dá algo material sobre o qual podemos trabalhar. Algo que impulsiona uma política de internacionalismo da luta de classes e que as pessoas conseguem compreender facilmente. Acho que esse foi o erro dos últimos anos, é algo que conseguimos corrigir muito bem. Também considero importante destacar que algumas pessoas tentaram diminuir essa vitória dizendo que talvez as pessoas não soubessem que a resolução era baseada no internacionalismo da luta de classes.

Mas a parte que deixava isso explícito foi alvo de uma tentativa de emenda para ser retirada da resolução, e essa proposta foi derrotada por uma grande margem. Portanto, não acho justo dizer que as pessoas simplesmente não sabiam do que estavam votando ou que essa posição foi colocada na resolução sem que percebessem.

Eleições e a atuação do YDSA

FLCMF: As discussões na conferência foram bastante amplas, envolvendo organização, diferentes pautas, eleições e também a construção partidária.

Quais foram os debates mais importantes em torno da questão eleitoral? Estamos a poucos meses das eleições de meio de mandato, que serão um momento importante nos Estados Unidos. Qual deveria ser o papel da YDSA nas próximas eleições?

James: Houve algumas discussões diferentes sobre eleições. Uma delas foi sobre como deveríamos nos posicionar diante da eleição presidencial de 2028. O DSA decidiu buscar a possibilidade de apoiar alguém para a eleição presidencial de 2028. Provavelmente será Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York, caso ela decida concorrer.

Um camarada do Bread and Roses apresentou uma proposta para que o YDSA tivesse voz nessa decisão dentro da DSA e pudesse escolher se seguiria ou não o endosso definido pela organização.

Portanto, inicialmente era uma questão mais procedimental. Mas a discussão acabou se transformando também em um debate sobre apoiar ou não a candidatura de AOC. Ainda precisamos definir qual será o método para realizar essa discussão.

Na minha perspectiva, um endosso poderia ser estrategicamente importante se servisse para construir a organização dos jovens e dos trabalhadores. Acho que isso é praticamente inevitável. Foi o que aconteceu com Bernie e também aconteceu com Zohran.

Não deveríamos abrir mão dessa possibilidade simplesmente porque ela possui posições políticas ruins. Podemos lidar com isso construindo uma campanha independente desde o início. Essa é uma parte da discussão.

Outra parte foi sobre se o YDSA deveria ter qualquer envolvimento eleitoral. Acho que esse será sempre um debate bastante controverso dentro do YDSA, porque existe uma tendência significativa da esquerda — especialmente entre socialistas que não acreditam na participação eleitoral — a rejeitar esse tipo de atuação.

Por outro lado, existem aqueles que consideram a participação eleitoral viável, seja de maneira geral, seja quando realizada de forma estratégica. Foi uma discussão bastante longa sobre se os núcleos da YDSA deveriam realizar intervenções eleitorais dentro da DSA e sobre como deveria ser o apoio a essas iniciativas.

A posição da Bread and Roses foi de que isso pode ser muito estratégico quando existe um núcleo local da DSA, quando a campanha está alinhada às prioridades do núcleo da YDSA e quando pode contribuir para o crescimento da organização.

Por isso, vamos trabalhar bastante este ano para apoiar jovens que estejam tentando organizar campanhas eleitorais localmente. Eu mesmo tenho trabalhado com uma campanha em Las Vegas.

Construção do Democratic Socialist of America

FLCMF: E sobre a discussão em torno da construção partidária? Sei que esse é um tema muito importante e bastante debatido dentro do YDSA. Como foi essa discussão na conferência?

James: Acho que a DSA deveria se concentrar na construção de seu próprio partido independente. Existe um consenso sobre isso dentro da seção de juventude. Neste momento, nos entendemos como a ala juvenil do partido socialista, embora a DSA ainda não seja formalmente um partido.

Nesse sentido, a YDSA é muito diferente da DSA. Isso não é mais realmente uma discussão dentro da juventude, porque todos entendem que essa é a direção que devemos seguir. As pessoas que não concordam são uma minoria tão pequena que sequer costumam disputar essa questão.

Por isso, a dinâmica é muito diferente. O YDSA vê tudo pela perspectiva da construção partidária. O eleitoralismo é pensado através da construção partidária. As campanhas são pensadas através da construção partidária. A organização sindical também é pensada através da construção partidária. Acho que isso torna o YDSA muito especial.

Os desafios do YDSA diante do atual momento político

FLCMF: O DSA vive um momento importante, não apenas eleitoralmente, mas também por estar envolvida em várias das principais lutas que acontecem nos Estados Unidos.

Qual você considera que pode ser o papel da YDSA nessa luta política? E qual é o papel da organização da juventude diante dos desafios deste momento?

James: Acho que o desafio para a YDSA será navegar em condições extremamente difíceis. Os campi estão enfrentando cortes e políticas de austeridade muito severas. Além disso, em algumas universidades, a polícia pode literalmente deportar estudantes. Policiais comuns podem prender uma pessoa e entregá-la para deportação. Isso é permitido e acontece em muitas universidades, especialmente no Sul.

Então, a questão que precisamos enfrentar é: como não recuar diante dessa situação? Como construir poder suficiente para enfrentar os capitalistas, o ICE e a extrema direita diretamente? Isso é uma questão de números. Como construímos uma base de massas capaz de resistir sob o governo Trump e diante da extrema direita? E, sendo realmente honestos, provavelmente Kamala Harris teria feito muitas das mesmas coisas.

Então, como construímos poder suficiente para que os capitalistas saibam que não podem agir dessa maneira sem enfrentar resistência? Grande parte disso significa construir nossa organização e aumentar o nível de organização dentro dos campi, seja entre trabalhadores, estudantes, funcionários ou na comunidade ao redor das universidades.

Essa é uma tarefa extremamente importante. É algo que tenho trabalhado pessoalmente, formando pessoas para fazer esse tipo de organização. Meu trabalho como co-presidente, neste momento, consiste principalmente em ensinar outras pessoas a fazer aquilo que eu já fiz. Durante o último ano, ajudei os núcleos a desenvolver sua capacidade organizativa. Treinei organizações locais que eram muito fracas para que conseguissem começar campanhas sérias de construção de poder dentro dos seus campi.

Agora tenho uma equipe completamente nova e preciso ensiná-la a fazer a mesma coisa, e preciso fazer isso muito rapidamente. É muita pressão, mas também acho que será muito divertido.

Também precisamos criar uma compreensão comum dentro da organização sobre a clareza e a dimensão da nossa tarefa. Quero trabalhar muito próximo de Mae (co-presidente recém eleita do YDSA, estudante da Universidade de Oregon) especialmente para reunir a organização em torno de uma direção bastante forte. Acho que isso será difícil e não acredito que acontecerá em apenas um ano. Mas acho que pode acontecer em dois anos, e precisa acontecer em dois anos.


[1] Nos Estados Unidos existem duas principais formas de organizações estudantis nas universidades, uma delas são os Sindicatos de Estudantes-trabalhadores que representam estudantes que trabalham nas universidades, em diversas funções, mas que se assemelham à figura do estagiário no Brasil. A outra são os Student Unions, que é semelhante ao que conhecemos no Brasil, os Diretórios Centrais dos Estudantes.

[2] Muitas universidades americanas possuem diversas relações com universidades israelenses, inclusive de investimento e outros tipos de parceria. Por isso o movimento estudantil americano se mobilizou para o fim dessas relações, em solidariedade à Palestina.