Zohran Mamdani será o novo prefeito da cidade de Nova York. Trata-se de um terremoto na política dos Estados Unidos, com repercussões mundiais. Em pleno governo de Donald Trump, a maior cidade do país será liderada por um imigrante ugandense, muçulmano, defensor da Palestina, jovem e socialista.
Nos últimos dias, o establishment político jogou todas as cartas para tentar impedir esse resultado. Dezenas de milhões de dólares foram injetados em anúncios na televisão e na internet, e até mesmo Trump declarou apoio a Andrew Cuomo, político do establishment democrata que foi o principal oponente de Mamdani. Entretanto, com mais de 90% das urnas apuradas, Mamdani não apenas venceu, como ultrapassou a marca de 50% dos votos totais, o que é importante para sua legitimidade política.
Às nove e quarenta da noite, no horário local, uma explosão popular tomou conta da cidade, especialmente onde o ativismo da campanha se reunia. Nos últimos meses, 90 mil pessoas se cadastraram como voluntários, batendo à porta de 3 milhões de residências. Mamdani encarnou um movimento imparável. O Democratic Socialists of America (DSA), grupo por ele integrado, triplicou de tamanho na cidade.
O discurso da vitória teve a força que o momento histórico inspira. Além de agradecer o ativismo da campanha, Mamdani anunciou uma era de mudanças estruturais. Ele reafirmou o compromisso com as três propostas principais da campanha: congelar os aluguéis, instituir a tarifa zero nos ônibus e universalizar o acesso gratuito às creches. Não são promessas menores, sobretudo considerando que, hoje em dia, aluguel e creche são as duas despesas que mais pesam no orçamento das famílias nova-iorquinas.
Mamdani confrontou os bilionários, ao dizer que “a oligarquia e o autoritarismo em Nova York serão enfrentados com a força que os bilionários mais temem, e não com a moderação que eles desejam”. E bateu de frente com Trump e seu significado profundo, falando: “Trump, eu sei que você está assistindo. Pode aumentar o volume. Nós vamos enquadrar os proprietários dessa cidade porque muitos ‘Donald Trumps’ já se criaram até hoje explorando inquilinos. Vamos acabar com a cultura corrupta que deixa bilionários como Trump não pagarem os impostos que deveriam. Vamos apoiar os sindicatos e expandir a seguridade trabalhista porque, quando isso acontece, patrões superexploradores tornam-se, na verdade, frágeis. Nova York continuará sendo uma cidade de imigrantes. Uma cidade construída por imigrantes e, a partir de agora, liderada por imigrantes. Ouça o que eu digo, presidente Trump: para pegar qualquer um de nós, você vai ter que enfrentar todos nós”.
Lições de uma vitória
Diante da vitória histórica, Nova York e Zohran Mamdani atraem os olhares do mundo e inspiram esperança. Muito já tem sido e ainda será publicado a respeito. Sobretudo, é preciso acompanhar os desdobramentos da vitória tendo em vista, ao mesmo tempo, o ânimo, a responsabilidade e os desafios que ela traz. A partir da posse em 1º de janeiro de 2026, as perspectivas não são fáceis. Haverá a obrigação de honrar a expectativa popular. As conjunturas local e mundial não sugerem estabilidade, e a prefeitura passará por testes. Nunca antes serão tão centrais as ideias de mobilização popular e a coragem de “avançar para não retroceder”. Mamdani, enquanto indivíduo e líder político, desempenhará um papel determinante.
E quais as lições da sua vitória? Sem pretender esgotar a análise, listamos abaixo 5 delas, tomando como critério destacar o que a vitória de Mamdani pode ensinar à luta socialista e à resistência ao neofascismo em escala mundial nos dias de hoje.
1 – Ideias radicais podem obter alcance de massas
Há um ano, quando Mamdani foi escolhido pelo DSA para disputar as prévias do Partido Democrata em Nova York, sua intenção de voto não chegava a 1%. Seis meses depois, entre fins de março e começo de abril, rompeu o patamar dos 10% pela primeira vez. Depois, cresceu exponencialmente até junho, quando venceu as primárias com 44%. Agora, elegeu-se prefeito obtendo mais de 50% dos votos. Foi preciso “amassar muito pão” até a campanha decolar, o que só aconteceu pela fidelidade a um programa claro e radical, capaz de dialogar com milhões de trabalhadores, e pela diferenciação clara em relação ao establishment político.
2 – A sociedade se divide, sobretudo, com base nos interesses de classe
Ao propor congelamento de aluguéis, tarifa zero nos ônibus e acesso gratuito e universal às creches, entre outras medidas a serem financiadas com a taxação dos super-ricos, a campanha de Mamdani acirrou o contraste entre os interesses de classe. A partir disso, dialogou com o conjunto da classe trabalhadora, incluindo eleitores desiludidos de Trump. Por esse caminho, também, desarmou a armadilha do preconceito e da discriminação promovidos pela extrema-direita, deixando claro que um programa econômico a favor da classe trabalhadora é, também, necessariamente, um programa pró-direitos de imigrantes, mulheres, negros, LGBTs e todos os segmentos marginalizados.
3 – Campanhas-movimento podem vencer o establishment
Construir campanhas-movimento não é fácil e nem um caminho garantido, mas é a obrigação daqueles que se dizem socialistas. Apostando nisso e combinando a dinâmica das redes e das ruas, Mamdani venceu, desbancando ninguém menos que Andrew Cuomo, ex-governador de Nova York. Em suas próprias palavras no discurso da vitória: “Nós derrubamos uma dinastia política.”
4 – A solidariedade à Palestina não está sob negociação
Zohran não recuou da defesa da Palestina e da denúncia do genocídio, mesmo sob enorme pressão. Nas prévias, ele acabou obtendo a maioria dos votos inclusive entre a comunidade judaica, que tem 1 milhão de membros em Nova York. Por ocasião da recente Assembleia da ONU, reuniu-se com Gustavo Petro, o presidente colombiano radicalmente pró-Palestina — Eric Adams, atual prefeito de Nova York, por sua vez, reuniu-se com Netanyahu.
5 – Um projeto de esquerda, amplo e socialista, é a melhor via para enfrentar tempos de barbárie
Diante do fortalecimento da extrema-direita, não só há espaço para afirmar saídas radicais, como são elas as únicas verdadeiramente viáveis para enfrentar a crise. Com Zohran, ainda que limitada ao âmbito eleitoral, a palavra socialismo alcançou apelo de massas, representando uma ideologia e uma política concreta. Seu programa baseia-se nos interesses materiais profundos da classe trabalhadora, seu método é a mobilização e seus valores são antagônicos aos da extrema-direita: igualdade, solidariedade, emancipação. Em tempos difíceis, a vitória de Mamdani não traz respostas prontas, nem responde a todos os problemas. Mas ela ilumina um caminho de mais esperança.