Por Adilson Vieira, Sociólogo e Coordenador de Articulação e Parcerias da Rede de Trabalho Amazônico GTA
A transição energética se tornou o novo mantra das elites globais. Fala-se em neutralidade de carbono, em economia verde, em energia limpa. Mas quase nunca se fala em mudar o sistema que destrói a vida em nome do lucro. Em vez de ruptura, o que se vê é o velho modelo extrativista tentando se pintar de verde para sobreviver a mais um ciclo. Nada ilustra melhor essa contradição do que a ofensiva do petróleo na Amazônia.
Enquanto discursos oficiais falam em proteger a floresta, o governo brasileiro insiste em abrir novos blocos de exploração na Margem Equatorial, uma região sensível e ainda pouco compreendida, nos limites do rio Amazonas com o mar. A promessa é a de sempre: desenvolvimento, emprego, progresso. Mas para quem?
A extração de petróleo na Amazônia não é um projeto de futuro. É a continuidade brutal de um passado colonial que transforma territórios vivos em zonas de sacrifício. Não há transição energética possível com mais petróleo. Não há futuro climático com mais queima de carbono. Essa verdade elementar, ignorada por tantos, é o ponto de partida da resistência que emerge na floresta.
Um dos centros dessa luta é a Rede de Trabalho Amazônico (GTA), que há décadas articula movimentos sociais, organizações de base, populações tradicionais e povos indígenas em defesa de uma Amazônia viva e soberana. Diante da ameaça do petróleo, o GTA se posiciona com clareza: não se trata apenas de barrar um projeto específico, mas de rejeitar um modelo inteiro. A transição energética verdadeira, segundo suas lideranças, não será feita com perfuradoras, nem com pacotes técnicos empacotados em Brasília. Será feita a partir dos territórios, com autonomia, justiça social e participação popular.
Esse horizonte não é abstrato. Ele se materializa em resistências concretas como as de Silves e Coari, dois municípios amazonenses às margens do rio Amazonas, alvos diretos da expansão petroleira. Em Silves, as comunidades mobilizadas denunciam a tentativa de transformar a região em zona de extração, com impacto direto sobre a pesca, os modos de vida e o equilíbrio ecológico local. Em Coari, onde a Petrobras já opera, os efeitos do modelo são visíveis: contaminação, concentração de renda, e fragmentação social. O petróleo não trouxe desenvolvimento, trouxe dependência e destruição.
Essas experiências mostram que o petróleo é incompatível com a vida amazônica. Onde ele avança, o tecido social se rompe, a floresta recua, o poder se centraliza. E, no entanto, o discurso dominante insiste em tratar o petróleo como ponte para a transição, um “mal necessário” até que as renováveis estejam prontas. Trata-se de uma ficção perigosa, repetida por governos e empresas para justificar o inaceitável. A própria Agência Internacional de Energia já declarou que nenhum novo projeto fóssil pode ser autorizado se o mundo quiser cumprir as metas do Acordo de Paris. Ainda assim, insistem.
Na verdade, a aposta no petróleo é uma recusa ativa da transição. É a escolha consciente por um modelo que já se provou insustentável. E não se trata apenas de uma questão ambiental, mas civilizatória. A expansão petroleira na Amazônia revela a face mais brutal do capitalismo: um sistema que converte tudo – rios, florestas, culturas – em mercadoria. Um sistema que, mesmo à beira do colapso, insiste em acelerar.
Por isso, a luta contra o petróleo não é apenas uma luta ambiental. É uma luta anticapitalista e por outro modo de existir. É nesse sentido que os movimentos de base amazônicos, articulados pelo GTA, representam não só uma frente de resistência, mas uma proposta alternativa de sociedade. Eles apontam para uma transição que não se resume à matriz energética, mas à redistribuição do poder. Não basta trocar o combustível, é preciso mudar quem decide, quem se beneficia, quem vive e quem morre.
Essas comunidades sabem que não há tempo a perder. O colapso climático já está em curso. A Amazônia mostra sinais de esgotamento. A cada novo poço perfurado, mais próxima fica a savanização e mais distante a possibilidade de reversão. Mas ainda há tempo, ainda há escolha. E a escolha se dá no concreto das lutas: quando uma comunidade de pescadores em Silves recusa o aliciamento de empresas; quando lideranças indígenas em Coari denunciam os efeitos da exploração; quando mulheres extrativistas, em assembleias do GTA, exigem o direito de decidir o que entra e o que sai de seus territórios…
Esses atos de resistência são freios de emergência, como dizia Walter Benjamin. Num trem desgovernado rumo à catástrofe, frear é um gesto revolucionário. Dizer não ao petróleo na Amazônia é dizer sim à vida, não como retórica, mas como prática. É afirmar que a transição energética não se faz perfurando o subsolo, mas fortalecendo a soberania dos povos que cuidam da floresta. É dizer que não há justiça climática sem justiça territorial.
O desafio é imenso, porque o inimigo não é apenas a Petrobras, nem o governo, mas uma lógica histórica de dominação e saque. Mas também é imenso o potencial dessas lutas locais, que são sementes de futuro e ensaios de outro mundo possível, não tecnológico, mas político. Um mundo em que a energia não seja instrumento de exploração, mas parte de um pacto entre sociedade e natureza, baseado no cuidado, na reciprocidade e na dignidade.
A Amazônia não precisa de petróleo para viver. Mas o planeta precisa da Amazônia viva para continuar existindo. Essa equação é simples. Complicado é enfrentar os interesses dos que lucram com a mentira. Por isso, a luta do GTA, de Silves, de Coari e de tantos outros territórios amazônicos deve ser vista pelo que ela é: uma vanguarda da transição real. Não aquela que sai dos gabinetes, mas a que brota da terra, dos rios, das vozes dos que sempre resistiram.