Plínio veio ao PSOL no final de 2005, após a crise do mensalão no PT, junto com centenas de outros militantes, correntes, dissidências de correntes, parlamentares, lideranças sindicais e populares que procuravam um novo caminho para a esquerda brasileira.
Mas com todo respeito, e é muito, aos demais valorosos e valorosas companheiras e companheiros que aderiram ao PSOL na ocasião, Plínio se destacava, não era mais um. Sua trajetória na história política nacional — um católico progressista que aderiu com entusiasmo às ideias de esquerda e socialistas, seu exílio no Chile, seu papel na ONU junto à FAO, seu legado na luta pela reforma agrária no Brasil, seu engajamento na formação do PT, sua contribuição intelectual e seu compromisso ético impecável — o tornaram um militante completo, uma reserva moral da esquerda brasileira.
Por essas razões, sua vinda ao PSOL foi uma vitória extraordinária para o jovem partido recém-nascido. Para mim em particular foi o início de uma convivência extraordinária, de muitos aprendizados.
Lembro ainda vivamente quando estávamos no saguão do aeroporto Santos Dumont, aguardando o embarque de volta a São Paulo após uma reunião do Diretório Nacional no final do mesmo ano de 2005. Plínio já estava preocupado com o debate estratégico no PSOL, refletindo sobre a necessidade de construir um ambiente de debate que superasse os vícios e erros do PT, bem como seu programa. Pontuava também a necessidade de retomar a prática do trabalho de base.
E, a partir de então, colocou-se à disposição do partido, arregaçou as mangas e iniciou uma nova etapa na sua vida militante como figura pública, intelectual lutador-militante, polemista e elaborador.
Acertando as contas com o passado, Plínio engajou-se com paixão e fraternidade nos debates internos do PSOL. No 1º Congresso do partido (2007), foi o porta-voz da posição pela superação dos vícios do velho Programa Democrático Popular e das ilusões de que seria por dentro do Estado ou em aliança com algum setor da classe dominante que se colocaria em marcha as mudanças transformadoras para uma revolução brasileira.
Quando no PT, Plínio foi defensor por décadas e contribuiu para formular o Programa Democrático Popular. Pela sua própria experiência militante e pela sua própria cabeça não dogmática, o velho Plínio chegou à conclusão de que era necessário um novo projeto para a esquerda socialista — na verdade, um novo projeto para o Brasil — capaz de romper com as amarras da desigualdade social e abrir as portas para uma verdadeira transformação que fosse além do que, por exemplo, André Singer chamou de “reformismo fraco” dos dois primeiros governos Lula.
Plínio enxergou no PSOL uma ferramenta de um projeto socialista, na superação de velhos reformismos
Foi exatamente com esse propósito que Plínio colocou-se à disposição do partido para ser um divulgador público desse novo partido e das suas novas ideias. Suas candidaturas a governador em 2006 e a presidente da República em 2010 tiveram o sentido de afirmar uma nova posição de esquerda na sociedade, que não se contentava com o velho jogo institucional burguês e nem com que a classe trabalhadora e os setores mais pobres e precarizados da população estivessem condenados a se contentar com poucas e frágeis reformas e políticas públicas, que não colocavam em xeque a brutal desigualdade social brasileira.
Cumpriu com altivez e maestria essa tarefa, em especial nas eleições de 2010, quando sua campanha dialogou fortemente com a juventude e quando demonstrou enorme talento para construir posições e expressar a opinião média do partido, mesmo em temas com os quais não tinha concordância.
Um mensageiro para o futuro
Plínio faleceu em 2014, uma perda inestimável. Foi um daqueles insubstituíveis. Particularmente, tenho muitas saudades da convivência partidária e pessoal daqueles anos.
Se engana quem vê Plínio de Arruda Sampaio como um protagonista de antigos debates ou de uma velha esquerda. Plínio foi e é uma referência de uma esquerda socialista para os novos tempos. Não foi por acaso algum sua adesão ao PSOL, um partido que naquele então ninguém sabia direito se iria muito longe.
Plínio enxergou ali uma ferramenta política para formular um projeto socialista para o futuro, na busca da superação dos velhos reformismos, no diálogo intenso com as novas gerações e com as demandas dos setores mais oprimidos. Com a sua insistência para que pensássemos fora das velhas caixas, cansou de alertar que a governabilidade do PT iria nos deixar reféns da classe dominante e de suas manobras — eis que dois anos após sua morte veio o golpe parlamentar de 2016.
A atual inserção do PSOL nos debates de uma nova reorganização da esquerda brasileira, da busca de um novo projeto de socialismo para o século XXI, dos avanços da inserção social e popular do partido nos últimos anos são parte do legado de busca de novos caminhos deixado pelo velho Plínio.
A essência dos seus embates, da sua autêntica pedagogia socialista, era para o futuro, para a revolução que pode tardar, mas não deixará de vir. E optou por fazer isso sempre da forma mais coletiva possível, pois, para mim, antes de tudo, Plínio foi um militante de partido e, no nosso caso, uma componente estruturante do que é o PSOL hoje.