Desde que Trump assumiu seu atual mandato, os Estados Unidos bombardearam sete países: Síria, Iraque, Iêmen, Somália, Nigéria, Venezuela e Irã.
Esse número, por si só, desmascara a retórica cínica do presidente a favor da “paz”. É óbvio que ninguém, hoje em dia, representa ameaça maior ao futuro da humanidade e à paz do que Trump.
Mesmo assim, a guerra atual no Irã rompe algumas ilusões específicas. Isso torna Trump e o imperialismo estadunidense ainda mais perigosos, ao mesmo tempo em que amplia o flanco aberto pelo presidente em sua política doméstica, dando espaço para o fortalecimento da oposição.
A maior das ilusões quebradas é a de que Trump não colocaria os Estados Unidos em uma guerra. Todos os bombardeios anteriores (inclusive no Irã, em junho de 2025) foram caracterizados como operações pontuais para objetivos específicos. Agora, a máscara antiguerra caiu. A palavra guerra é usada na imprensa, na diplomacia internacional, no próprio governo.
Outra ilusão rompida é a de que os Estados Unidos teriam aprendido com seus erros no Oriente Médio e que a nova política externa daria foco quase exclusivo às Américas. Se é fato que o resgate da Doutrina Monroe permanece uma prioridade, a guerra no Irã demonstra que o imperialismo ianque está longe de abandonar o Oriente Médio.
Já uma terceira ilusão tem a ver com a relação com Israel. Deve-se lembrar que foram os Estados Unidos e Israel, conjuntamente, que entraram em guerra contra o Irã. Ao passo que a diplomacia estadunidense alega não se tratar de uma guerra pela “mudança de regime”, a diplomacia israelense é explícita ao manifestar esse objetivo. O chamado “Conselho da Paz” é natimorto e a esperança de estabilização da situação em Gaza é ilusória, dado que o vínculo entre Trump e Netanyahu é fortíssimo. Ambos representam, hoje, os maiores inimigos da humanidade, da democracia e dos direitos humanos.
Entretanto, Trump pode ter problemas internos. Apenas 1/4 da população estadunidense apoia a guerra, sendo a primeira vez na era moderna que o país deflagra um conflito sem apoio majoritário da população. A imprensa já noticia que foi um ataque americano que assassinou 150 crianças na escola primária Shajareh Tayyebeh, no sul do Irã. E há ainda insatisfação com a situação nacional. Enquanto o país gasta bilhões bombardeando o Irã, internamente faltam recursos para demandas sociais mínimas. O preço da gasolina aumentou 17% em apenas dez dias.
Também existe uma forte impressão de falta de planejamento nas ações. Trump, aparentemente, calculou que um ataque furioso ao Irã, assim como na Venezuela, daria a ele uma vitória rápida. Mas no Irã a situação é mais complicada. Ao mesmo tempo, Trump apega-se ao discurso de que não colocará tropas em solo. Sem fazê-lo, alcançará a vitória em poucas semanas, como tem prometido? Se não alcançar, os Estados Unidos vão patrocinar, ao lado de Israel, uma política de ataques permanentes durante meses ou anos? Vai-se submeter a população iraniana a um terror semelhante ao que é submetida a população de Gaza?
Lembre-se de que os Estados Unidos quebraram negociações em curso com o Irã para dar início à guerra. E já há mortes registradas de agentes estadunidenses, ainda que poucas.
Do ponto de vista dos movimentos sociais, da classe trabalhadora e dos setores democráticos, a luta contra a guerra adquire centralidade. A resistência interna nos Estados Unidos será determinante para a definição do cenário. A força social que nos últimos anos mobilizou-se contra o genocídio em Gaza, e que atualmente organiza-se contra o terrorismo do ICE no país, poderá, agora, organizar-se contra mais uma guerra no Oriente Médio, colhendo as lições de movimentos do passado, e atualizando as tarefas de acordo com o desafio corrente de derrotar uma política neofascista.
É preciso conformar a mais ampla unidade internacional e nacional para parar Trump, o senhor da guerra.