Por Branko Marcetic/Jacobin
A vitória esmagadora das candidatas e candidatos do Democratic Socialists of America (DSA) em Nova York, na noite da última quarta, 24 de junho, foi construída com base em mais do que o apoio do prefeito Mamdani: o segredo foi o poder de organização dessa ala esquerda do Partido Democrata, facilitada pelo desgaste da direção desse partido e sua política de apoio incondicional a Israel. O DSA se consolida como a principal força política da cidade, afirma Marcetic, autor deste artigo da Jacobin estadunidense.
Não é incomum ouvir gritos de “U-S-A” em eventos políticos nos EUA. Mas o grito que ressoou repetidamente no 99 Scott Studio, em Williamsburg (Brooklyn, NY), na noite de 24 de junho, após a vitória quase total dos candidatos socialistas, tinha uma letra diferente: “D-S-A”. É a sigla dos Socialistas Democráticos da América, cuja seção de Nova York, a NYC-DSA, emergiu como a grande vencedora nas eleições primárias desta semana na cidade: todos, exceto um, dos nove candidatos rebeldes apoiados por ele venceram suas disputas para o Congresso dos EUA e para a Assembleia Legislativa do Estado de Nova York.
Diana Moreno também foi reeleita para seu cargo na Assembleia Estadual após conquistá-lo em uma eleição suplementar no ano passado, e fora da cidade, Adam Bojak, do DSA de Buffalo, foi eleito para a Assembleia pela primeira vez. (Em Syracuse, o candidato desafiante apoiado pelo DSA, Maurice Brown, está liderando sua disputa pela Assembleia, mas o resultado ainda está muito acirrado para se definir.) Eles conseguiram isso graças a uma campanha de porta em porta intensa e exaustiva que, um ano depois que um esforço popular semelhante catapultou outro membro do DSA, Zohran Mamdani, para a prefeitura de Nova York e consolidou firmemente o grupo como uma força política formidável — capaz de superar os sindicatos e até mesmo o Partido das Famílias Trabalhadoras (WFP), que por décadas foi a principal força eleitoral progressista da cidade.
Mesmo incrédulos com a rapidez e a determinação com que os resultados lhes foram favoráveis, as centenas de membros entusiasmados do DSA que lotaram a festa oficial de acompanhamento da agora candidata democrata pelo Sétimo Distrito Congressional de Nova York, Claire Valdéz, estavam plenamente conscientes de seu novo poder. “Vocês são os próximos! Vocês são os próximos!”, gritavam para a TV enquanto o líder da minoria na Câmara, Hakeem Jeffries, um adversário de longa data da esquerda, aparecia na tela. Um candidato vencedor após o outro subia ao palco para implorar aos presentes que se juntassem à organização.
“A água está quente — junte-se a nós”, disse Diana Moreno à multidão. “Junte-se a este belo movimento.” Isso incluía Valdez, uma sindicalista e deputada estadual em seu primeiro mandato, que causou grande surpresa ao vencer por 21 pontos o presidente do distrito de Brooklyn, Antonio Reynoso — apoiado pelo WFP —, na disputa pela vaga na Câmara dos Deputados ocupada por dezesseis mandatos pela veterana progressista Nydia Velázquez.

Mesmo para uma campanha ao Congresso envolvendo uma candidata socialista insurgente, a disputa de Valdez assumiu um peso incomum. Um dos motivos foi o envolvimento do WFP, que transformou a disputa em uma espécie de guerra territorial entre progressistas. O diretor do WFP em Nova York disse ao New York Times que eles tinham aconselhado Reynoso a “não ceder a ala de esquerda para Claire [Valdez] e o DSA”. O próprio Reynoso definiu a disputa como “a DSA, Zohran Mamdani e Bernie Sanders contra o WFP, a [procuradora-geral] Tish James, o [defensor público] Jumaane Williams e o grupo de progressistas que vem trabalhando muito há muito tempo”.
A outra razão foi o próprio Mamdani. Em vez de escolher um candidato do DSA aprovado e orientado por Velázquez — havia vários —, Mamdani optou por apoiar alguém que considerava uma aliada mais próxima, Valdez, o que desencadeou uma briga pública e excepcionalmente acirrada com a congressista que estava deixando o cargo, que havia sido uma de suas primeiras apoiadoras quando ele lançou sua candidatura à Prefeitura, considerada improvável. A decisão foi um risco: uma derrota teria, talvez fatalmente, prejudicado tanto a si mesmo quanto ao movimento que o apoiava, com apenas meio ano de mandato [Nota da tradução: meio ano à época decisão; Mandami está prefeito há um ano].
Depois que a preocupação com uma queda na participação eleitoral levou a uma reunião de emergência da DSA, a organização entrou em ação, com muitos membros fazendo campanha incessantemente. No fim de semana anterior à votação, houve um aumento no número de pessoas batendo de porta em porta, algumas fazendo turnos consecutivos de três horas.
Após meses de paciente trabalho de convencimento, essa intensificação de última hora nas campanhas de rua parece ter surtido efeito. Vários angariadores de votos disseram que suas preocupações com o dia da eleição, os números das pesquisas e as previsões feitas pelos analistas se dissiparam diante de suas interações com eleitores reais nos distritos progressistas e pró-Mamdani onde fizeram campanha, que repetidamente diziam aos militantes do DSA que pretendiam votar nos candidatos socialistas, em vez de seus oponentes.
Além dos candidatos, tanto o DSA quanto o próprio socialismo parecem ter se tornado parte do mainstream com o resultado de ontem à noite. Apenas alguns anos depois de os candidatos da DSA, ocasionalmente, minimizarem seu socialismo democrático para tentar conquistar eleitores comuns, os angariadores de votos desta vez consideraram o rótulo uma vantagem.
A resposta dos eleitores ao DSA foi “positiva como nunca”, disse Max, de 34 anos, membro da organização. Uma eleitora de meia-idade do sul da Ásia afirmou que não estava votando em nenhum candidato específico, mas no DAS. “Estou votando em toda a chapa do partido”, foi como outro eleitor descreveu seu voto no DSA. Em um momento em que tanto os partidos tradicionais quanto a maioria dos políticos são amplamente vistos como corruptos e desonestos, os eleitores nas portas pareciam valorizar candidatos que se identificavam como socialistas democráticos, relatou Simon, de 36 anos, outro angariador de votos.
É um desdobramento que provavelmente não teria ocorrido sem o colapso da popularidade do Partido Democrata entre seus próprios eleitores ao longo do último ano e meio. De fato, além da chapa socialista, ontem à noite pelo menos uma dúzia de candidatos democratas em busca da reeleição ficou atrás de adversários mais progressistas, incluindo o ex-controlador-geral da cidade, apoiado por Mamdani, Brad Lander. Lander derrotou o deputado Dan Goldman, que cumpria seu segundo mandato, criticando-o duramente por não ter ido longe o suficiente ao criticar o genocídio de Israel contra os palestinos ou restringir a venda de armas aos israelenses.
As eleições de ontem à noite, portanto, estão em sintonia com a tendência observada em todo o país, seja na rejeição esmagadora dos eleitores democratas do Maine à sua governadora centrista em favor de um novato na política atormentado por escândalos, Graham Platner [NT: um veterano de guerra, criador de ostras], bem à esquerda dela. Seja na própria vitória de Mamdani sobre o outrora “príncipe” do Partido Democrata, Andrew Cuomo.
Com a imagem do Partido Democrata em frangalhos devido ao que é amplamente visto como a oposição ineficaz e incompetente da cúpula do partido a Donald Trump, a porta se abriu de par em par para os insurgentes de esquerda que antes tinham de se defender — e até mesmo sucumbiram — a acusações de deslealdade ao partido ou de não serem “verdadeiros” democratas. Basta olhar para a congressista eleita Darializa Avila Chevalier, que resistiu ao que se pretendia que fossem revelações prejudiciais de que ela havia, entre outras coisas, chamado Joe Biden de “criminoso de guerra” [pelo apoio a Israel, NT] e, certa vez, tuitado “F… Kamala Harris”.
Essas vitórias expressam ademais outra tendência: como apontam os vencedores Chevalier e Lander, além de uma vitória para o DSA e a esquerda socialista, o resultado de ontem à noite foi uma grande derrota para o lobby pró-Israel, que mais uma vez gastou muito para derrotar candidatos socialistas críticos a Israel e ao seu genocídio contra os palestinos. Um ano após a vitória de Mamdani sobre a campanha obsessivamente pró-Israel de Cuomo, o resultado consolida o fato de que o apoio incondicional a Israel — enquanto o país se intromete na política dos EUA e causa estragos em todo o Oriente Médio — não é mais visto como uma boa estratégia política nem uma boa política, mesmo em Nova York, que já foi o coração pulsante do sionismo americano.
Zohran Mamdani em sequência de vitórias
Por falar no prefeito, Mamdani saiu da noite passada como outro grande vencedor. Além de sua aposta no Sétimo Distrito ter dado certo, os eleitores enviaram nove de seus aliados para a Assembleia Legislativa estadual (dez, se contarmos a atual deputada Moreno, que venceu as primárias ontem à noite), reforçando o número de votos de que ele disporá lá enquanto pressiona Albany [capital do estado de NY, NT] para que suas principais promessas de campanha sejam aprovadas, incluindo a tributação dos ricos para financiar ônibus urbanos gratuitos e creches universais. (Uma versão disso está sendo promovida atualmente pela governadora Kathy Hochul, embora de forma limitada).
Tão importante quanto seus esforços para pressionar os legisladores estaduais, os eleitores também demonstraram da maneira mais visceral possível que o apelo público do prefeito é profundo e que sua influência é ampla. “Ah, sim, são do Mamdani. Vou votar neles”, foram as palavras de um eleitor, segundo um ativista do DSA que fazia campanha porta a porta para Valdez e Christian Tate, que ontem à noite foi eleito para a Assembleia Estadual com 62% dos votos.
Esse não foi um caso isolado. Muitos eleitores talvez não soubessem quem eram a maioria dos candidatos ou que havia uma eleição acontecendo, mas gostavam do prefeito e ficaram mais do que felizes em votar nos candidatos que ele apoiava. O apoio de Mamdani provou ser um grande trunfo para os angariadores de votos, servindo como um argumento persuasivo para convencer eleitores ocupados ou simplesmente iniciar uma conversa, especialmente no jovem e diversificado “Commie Corridor” [algo como “corredor comunista”, apelido dos distritos vermelhos de Nova York], que o havia apoiado de forma esmagadora no ano passado.
Como resultado, os legisladores do establishment em Albany agora enfrentam uma escolha clara. Eles podem apoiar a agenda de Mamdani, aprová-la e colher as ricas recompensas eleitorais que estão à disposição daqueles que os eleitores consideram seus aliados. Ou podem bloqueá-la e enfrentar uma primária na qual terão de suportar tanto o ressentimento dos eleitores quanto o poder de organização do DSA.
Olhando além de sua agenda legislativa, essa nova realidade política dará um impulso à ambição mais grandiosa e de longo prazo que Mamdani delineou há quase uma semana em um comício com Bernie Sanders, que também deu seu apoio à chapa socialista. Lá, Mamdani lançou um ataque ao estilo de Sanders contra o conservadorismo do Partido Democrata — “nosso partido”, como ele o chamou — em sua forma atual, acusando a cúpula do partido de ver “sua função como a de gerenciar o declínio em vez de promover mudanças concretas para a classe trabalhadora” e alertando que essa abordagem levaria a fracassos contínuos nas urnas. Ele apresentou a chapa socialista de Nova York como uma visão do futuro do partido, sua “resposta” ao estado desolador em que se encontra hoje.
A julgar pelos resultados da noite passada, os eleitores democratas claramente concordam. E não apenas os de Nova York. Candidatos socialistas, geralmente vindos do DSA, vêm conquistando poder de forma constante nos níveis locais, estaduais e federal na última década, concorrendo como democratas, conquistando cargos e maiorias legislativas nas duas costas do país, no Meio-Oeste, no Sudoeste e até mesmo no Sul, a ponto de chegar a 250 membros do DSA ocupando cargos eletivos em quarenta estados. Vários candidatos socialistas estão posicionados para possivelmente conquistar vitórias de grande repercussão no ano que vem, incluindo Fran Hong, que atualmente está em disputa acirrada pela indicação democrata para governador de Wisconsin.
Os círculos políticos tradicionais têm tendido a se concentrar em difamar e ridicularizar o DSA, mesmo diante do aumento contínuo de seus representantes eleitos. Na verdade, os socialistas muitas vezes conquistaram poder exatamente no mesmo momento em que políticos e comentaristas os descartavam arrogantemente como uma força política. A noite passada mostrou que eles ainda estão crescendo e que ninguém mais os despreza no cenário político.
Branko Marcetic é redator da revista Jacobin e autor de Yesterday’s Man: The Case Against Joe Biden.
Tradução da FLCMF.