María Castillo, cartadora
Gaston “Batara” Reyes, trabalhador da construção civil
Romina Padilla, horticultura
Em sua Encíclica Laudato Si’, sobre o “cuidado com a casa comum”, o Papa Francisco escreveu: “(…) É fundamental buscar soluções integrais que considerem as interações dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais. Não existem duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise socioambiental. As linhas de solução exigem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, ao mesmo tempo, cuidar da natureza.”
Nas cidades do mundo, às margens do mercado formal, milhões de trabalhadoras e trabalhadores da economia popular, são prova viva da tese de Francisco. Na Argentina, organizados em cooperativas e movimentos que se articulam na União de Trabalhadores e Trabalhadoras da Economia Popular (UTEP), essas trabalhadoras e trabalhadores sustentam tarefas essenciais para a vida coletiva: reciclam os resíduos que o mercado descarta, constroem, melhoram e organizam seus bairros e produzem alimentos saudáveis nas periferias urbanas.
Fazem tudo isso com baixo impacto ambiental, reaproveitando materiais reciclados, energia humana, saberes comunitários e tecnologias apropriadas. Promover o seu trabalho não é apenas uma questão de justiça social: é também uma estratégia concreta diante do aquecimento global. Em uma perspectiva ecológica integral – na qual tudo está interligado: o meio ambiente, a justiça social, a economia, a cultura e a vida cotidiana – é inegável a capacidade da economia popular de reparar vínculos entre pessoas, comunidades e natureza, propondo outra forma de habitar a Terra.
MÃOS QUE RECICLAM
O catadores urbanos, organizados dentro da UTEP através da Federação Argentina de Catadores, Carroceiros e Recicladores (FACCyR), é emblemático. Este grupo conforma a base popular da economia circular. Todos os dias, mais de 150 mil trabalhadores separam e classificam materiais recicláveis: papelão, papel, plástico, vidro e metais. Com carrinhos, bicicletas e triciclos, realizam uma das atividades de menor pegada de carbono de todo o sistema urbano.
Segundo o Programa da ONU para o Meio Ambiente (PNUMA), 12% das emissões mundiais de metano provêm de resíduos sólidos municipais. Na Argentina, com cerca de 5.000 lixões a céu aberto, a reciclagem com inclusão social é uma das medidas mais eficazes para reduzir essas emissões.
Nesse contexto, as cooperativas de catadores construíram uma infraestrutura ambiental e social que inclui centros verdes, plantas de triagem e campanhas de educação ambiental. Algumas, como El Amanecer de los Cartoneros, avançam em processos de industrialização popular, agregando valor aos materiais recuperados. Além disso, mantêm cozinhas solidárias, espaços de cuidado e formação, promovendo direitos trabalhistas e organização comunitária.
O desfinanciamento das políticas ambientais e sociais no país, no entanto, ameaça a continuidade dessas iniciativas. Ainda assim, a reciclagem com inclusão social continua sendo uma política climática de base, transformando resíduos em recursos, reduzindo gases de efeito estufa e gerando trabalho com sentido ambiental e comunitário – o que favorece a construção popular.
MÃOS QUE CONSTRÓEM
Por sua vez, as cooperativas de construção da economia popular protagonizam um processo de integração socioespacial baseado no direito à moradia e na justiça climática. A partir da criação do Registro Nacional de Bairros Populares (RENABAP) e da Lei 27.453, milhares de moradores organizados começaram a urbanizar seus próprios bairros.
Assim como em diversas cidades do mundo, a desigualdade ambiental é evidente na Argentina: quase metade dos bairros populares está localizada em áreas inundáveis e mais de um terço convive com pequenos lixões. Nesse contexto, as obras realizadas — redes de água, eletricidade segura, drenagem, calçadas e áreas verdes — não apenas melhoram o habitat, mas reduzem riscos climáticos, como inundações e incêndios.
Quando as cooperativas planejam e executam as obras em seus territórios, aplicam uma arquitetura do cuidado, utilizando materiais locais, com participação comunitária e aproveitamento racional dos recursos. Não constroem, portanto, apenas infraestrutura: reconstroem a comunidade, fortalecem vínculos e transformam as margens urbanas em espaços vivos e conformam um processo de adaptação climática de base, essencial para cidades mais justas e resilientes.
MÃOS QUE SEMEIAM
No campo e nas bordas urbanas, camponeses, trabalhadores sem-terra e povos originários sustentam a produção de alimentos frescos e o cuidado com os ecossistemas. Diante do modelo agroindustrial concentrado, dependente de agrotóxicos e voltado à exportação, eles promovem um modelo agroecológico e de proximidade que preserva a terra, a água e a saúde das comunidades.
As cooperativas e associações organizadas na UTEP promovem feiras locais, mercados populares e sistemas de comercialização direta, aproximando alimentos saudáveis a preços justos. A UTEP articula e representa esses setores, fortalecendo sua defesa do território frente ao agronegócio e à especulação imobiliária.
Os cinturões hortícolas periurbanos são áreas fundamentais nesse sentido: abastecem as cidades com alimentos e funcionam como pulmões verdes, que regulam o microclima e mitigam o calor urbano. Contudo, a falta de acesso à terra, os aluguéis abusivos e os despejos colocam essa produção em risco.
As comunidades originárias, por sua vez, também defendem a posse comunitária de seus territórios, praticando uma relação de equilíbrio com a natureza e preservando saberes ancestrais. Em todas essas experiências, produzir alimentos é também um ato de cuidado com a Casa Comum, mais uma prova de como a economia popular desenvolve práticas reais de transição ecológica justa.
TRANSIÇÃO JUSTA PELA BASE
Essa transição, vale ressaltar, não pode se apoiar apenas no esforço de quem já vive em condições precárias. Sem políticas públicas que garantam terra, moradia e trabalho, não haverá verdadeira justiça ambiental nem social. O Estado deve integrar esses trabalhadores às políticas climáticas: incluí-los nos planos de mitigação e adaptação, financiar tecnologias apropriadas, promover a industrialização popular e reconhecer sua contribuição para a sustentabilidade.
Avançar rumo a uma sociedade justa exige assumir a ecologia integral como horizonte: compreender que a justiça social, ambiental e econômica são inseparáveis. Cuidar da Casa Comum é cuidar de quem a habita: das mãos que reciclam, constroem e semeiam. Uma economia verdadeiramente sustentável não se alcança com projetos tecnológicos milionários nem com promessas de mercado verde, mas com povos organizados que reciclam, semeiam e constroem comunidade.