Por que o Brasil (junto com o México) é tão importante para Trump, bilionários dos EUA e seus seguidores? São dois países de economia chamada “média”, com governos à esquerda. O Brasil é a bola da vez porque a estratégia de Trump-Rubio é dominar todo o continente com seus aliados de extrema direita. Para isso, não têm o menor prurido em se meter na disputa eleitoral, como já interferiram em vários hermanos.
A Assembleia Geral da ONU, por tradição aberta com o discurso do governante do Brasil, seguido pelo dos Estados Unidos, acabou se tornando palco de um grande embate sobre o futuro da América Latina, da Europa e do Oriente Médio principalmente. Lula colocou a defesa da soberania e da autonomia dos países no centro de sua intervenção, denunciando o avanço de interferências externas e a divisão do mundo em zonas de influência. Criticou a paralisia do Conselho de Segurança diante das guerras, condenou a ofensiva israelense em Gaza e defendeu a criação de um Estado palestino. Lula também rejeitou qualquer intervenção estrangeira sob o pretexto de combate ao crime organizado, defendeu a integração latino-americana e a reforma das instituições multilaterais. Afirmou que o país não aceitará interferências externas em seu processo eleitoral e ressaltou a importância de preservar os regimes democráticos.
Trump veio em seguida com uma das peças de oratória mais fantasiosas da história da ONU. No mundo das maravilhas de Donald, os EUA nunca foram tão prósperos, sua metralhadora de tarifas altas para importações está gerando melhorias econômicas dentro de casa, ele pôs fim a sete guerras (China e Índia são culpadas pela extensão da guerra russa na Ucrânia, porque apoiam Putin), os EUA estão ganhando militarmente do Irã – ao qual prometeu esmagar. Nesse emaranhado de mentiras ou distorções dos fatos, pode-se pescar, mais nas promessas do que no balanço das supostas realizações, algumas ameaças sérias: (1) à luta contra o aquecimento global, que o governo estadunidense segue julgando uma farsa; (2) à Europa, que Trump e os neofascistas do mundo desprezam por sua tradição democrática, de direitos sociais e de iniciativas tímidas contra a crise do clima; e (3), mas não menos importante, ao Brasil, como parte de seu “hemisfério ocidental”, a parcela do mundo emq eu pretende mandar e desmandar, sem presença de competidores.
Sob o governo Trump, os Estados Unidos adotaram uma postura altamente ofensiva de intervenção e pressão sobre processos eleitorais de países latino-americanos. Em Honduras, em 2025, poucos dias antes das eleições presidenciais, Trump declarou apoio público ao candidato de direita Nasry “Tito” Asfura, do Partido Nacional, e afirmou que os Estados Unidos poderiam reconsiderar sua ajuda ao país caso Asfura não fosse eleito. Além disso, às vésperas da eleição hondurenha, Trump anunciou que concederia perdão presidencial a Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras e figura central do Partido Nacional, condenado nos Estados Unidos a 45 anos de prisão por tráfico de drogas.
No Equador, nas eleições presidenciais de 2025, a CBS News revelou que uma avaliação da inteligência americana havia apontado Daniel Noboa como o candidato cuja vitória melhor atenderia aos interesses dos Estados Unidos. A reportagem também informou que Noboa negociava com Washington a possibilidade de estabelecer uma presença militar americana no Equador.
Já na Colômbia, Trump declarou apoio ao candidato de direita Abelardo de la Espriella, que disputou a eleição contra Iván Cepeda, candidato apoiado pelo então presidente de esquerda Gustavo Petro. O apoio ocorreu após meses de acusações de Trump contra Petro, a quem o presidente americano associou ao narcotráfico. O episódio também ocorreu em meio ao aumento das tensões entre os dois governos, incluindo operações americanas contra embarcações que Washington afirma estarem envolvidas com o tráfico de drogas.
Para o Brasil, em julho de 2026, segundo o The Washington Post, o governo dos Estados Unidos havia planejado enviar dois funcionários, com o objetivo de questionar a integridade do sistema eleitoral brasileiro. Um deles, Samuel Samson, já havia viajado para países africanos e europeus com o objetivo de fortalecer relações com grupos políticos de extrema direita. O governo brasileiro negou autorização para a entrada dos dois funcionários. (Em retaliação, Trump suspendeu o visto diplomático da embaixadora brasileira em Washington, que assim não pode sair dos EUA, sob pena de não voltar).
Também em junho deste ano, o governo americano abriu uma investigação comercial contra o Brasil, por determinação de Trump. O governo dos Estados Unidos alegou que uma série de atos, políticas e práticas brasileiras relacionadas, entre outros temas, ao comércio digital e aos serviços de pagamentos digitais estaria prejudicando empresas e interesses americanos. Um relatório produzido pela ABIN em agosto e divulgado pela imprensa brasileira em setembro classificou como crítico o risco de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras.
As eleições acontecem, portanto, em um momento de intensificação das disputas políticas e geopolíticas no mundo e no continente. A estratégia de Trump para controlar politicamente a América Latina já produziu mudanças importantes na região, embora os resultados eleitorais favoráveis a candidatos alinhados a Washington não tenham eliminado a instabilidade política.
A criação do Escudo das Américas, coalizão impulsionada por Trump em março deste ano sob o argumento de combater o narcotráfico na região, é um dos símbolos dessa nova postura ianque. A iniciativa expressa uma concepção de segurança hemisférica na qual o combate ao narcotráfico e à criminalidade é utilizado como justificativa para ampliar a presença e a influência dos Estados Unidos. Essa política reforça uma relação de dominação de Washington sobre a América Latina.
É nesse contexto que o discurso de Lula na ONU ganha relevância. Ao defender a soberania brasileira e rejeitar interferências estrangeiras no processo eleitoral, o presidente colocou as eleições de 2026 dentro de uma disputa mais ampla sobre a autonomia política dos países latino-americanos. Na América do Sul, o Brasil ocupa uma posição central nesse debate.
As eleições brasileiras ocorrerão em meio à disputa entre diferentes projetos para a região e à crescente pressão dos Estados Unidos sobre governos latino-americanos. Apesar das contradições e dos limites do governo Lula, a defesa da soberania nacional e da autonomia política diante de pressões externas constitui um dos elementos centrais do debate que envolve as eleições brasileiras de 2026.