As primárias democratas de 2026 mostraram que candidaturas socialistas deixaram de ser exceção nos Estados Unidos. O DSA pode triplicar sua representação na Câmara, e o dado mais relevante não está nas cadeiras: está nas 282 candidaturas apresentadas e nos milhares de voluntários mobilizados em regiões que socialitas nunca haviam disputado uma eleição.
As primárias do Partido Democrata estão praticamente concluídas, e o desempenho dos Socialistas Democráticos dos Estados Unidos (Democratic Socialists of America — DSA) esteve sob o escrutínio de todos os setores políticos: de seus adversários diretos nas primárias à grande mídia burguesa, passando pelo movimento MAGA e pelo Partido Republicano.
Acreditamos que os desafios enfrentados pelo DSA neste ciclo de eleições internas no Partido Democrata, assim como suas importantes vitórias, merecem a atenção de toda a esquerda brasileira.
Até 2018, o DSA não havia elegido nenhum parlamentar federal; sua referência mais próxima no Congresso era o senador Bernie Sanders, apoiado pela organização, ainda que sem filiação a ela. Aquele ano, porém, foi um marco para a intervenção eleitoral do DSA. Foi quando foram eleitas deputadas federais que ficariam conhecidas como The Squad (algo como “o time”, “a equipe”), um conjunto de mulheres ativistas com afinidade política entre si que representava um desafio ao status quo do Partido Democrata: Alexandria Ocasio-Cortez (AOC), Ilhan Omar, Rashida Tlaib e Ayanna Pressley.
Dessas parlamentares, apenas AOC e Tlaib eram filiadas ao DSA. Apesar da proximidade política entre elas, o grupo não desenvolveu uma atuação suficientemente conjunta para se consolidar como um bloco político capaz de disputar os rumos do Congresso. Isso, entretanto, não diminui a dimensão daquele feito. À época, o resultado impressionou amplos setores da política norte-americana. Afinal, a presença de parlamentares que defendiam saúde pública universal e gratuita, taxação dos ricos, universidade pública e outros direitos sociais representava uma mudança importante no cenário político estadunidense.
No atual ciclo eleitoral, os resultados são ainda mais impressionantes. O DSA pode saltar de duas para sete cadeiras na Câmara dos Representantes — instituição correspondente à Câmara dos Deputados brasileira — com Chris Rabb, Claire Valdez, Darializa Avila Chevalier, Melat Kiros e Donavan McKinney, além de AOC e Tlaib, que venceram novamente suas primárias.
Todas essas candidaturas venceram em distritos de forte predominância eleitoral do Partido Democrata e, por isso, têm grandes chances de se confirmar nas eleições de novembro.
Além das disputas pelo Congresso, o DSA apresentou um número significativo de candidaturas estaduais em todo o país. Segundo levantamento da Brookings Institution, a organização apoiou oficialmente 282 candidaturas, seja pela direção nacional, seja por seus núcleos locais; 123 delas venceram as primárias. A maioria disputava cargos estaduais e municipais.
É importante ressaltar que esses dados não incluem as candidaturas de membros do DSA sem apoio formal da organização. É o caso de Angie Nixon, que venceu as primárias para o Senado da Flórida. Há ainda candidaturas que, sem apoio formal, defenderam programas próximos ao da organização, como a de Abdul El-Sayed, ao Senado por Michigan, que sustentou a abolição do ICE — a polícia migratória norte-americana —, o Medicare para todos e a taxação dos ricos.
Além dos resultados eleitorais, chama atenção a coesão programática das candidaturas socialistas. Em julho de 2026, o DSA lançou seu novo programa nacional, Workers Deserve More (os trabalhadores merecem mais), que organiza suas principais propostas.
Embora cada candidatura adapte as propostas às condições locais e aos debates de seu distrito ou estado, os principais pontos defendidos pelos socialistas democráticos podem ser sintetizados assim:
1. Medicare para todos
A proposta cria um sistema universal de saúde pública nos Estados Unidos, que garante atendimento médico a toda a população sem cobrança de mensalidades. Inclui também o acesso universal à saúde reprodutiva e aos cuidados de afirmação de gênero.
2. Moradia para todos (Housing for all)
A moradia é apresentada como direito humano, não como mercadoria. O programa defende a construção de habitações sociais de propriedade pública, o controle universal dos aluguéis, a regulamentação da especulação imobiliária e o direito à defesa jurídica para inquilinos ameaçados de despejo.
3. Aboliçao do ICE
O DSA defende o fim da polícia migratória, o Immigration and Customs Enforcement (ICE), órgão responsável pela repressão aos imigrantes, pelas detenções e pelas deportações nos Estados Unidos. A proposta inclui o fim das deportações e dos centros de detenção, a regularização de imigrantes e a abertura de vias de acesso à cidadania.
4. Green New Deal (New Deal verde, em referência ao grande programa social do anos pós-depressão de 1929, levado adiante por F.D. Roosevelt)
O programa defende uma transição ecológica conduzida pela classe trabalhadora. Entre as propostas estão grandes investimentos públicos em energia sustentável e transporte coletivo, uma garantia federal de empregos e a substituição progressiva dos combustíveis fósseis por fontes renováveis.
5. Fim da Máquina de Guerra dos EUA (End the U.S. War Machine)
Na política externa, o DSA defende o fim do militarismo estadunidense: o encerramento de guerras e intervenções, o fechamento de bases militares no exterior, a redução dos gastos militares e a responsabilização de autoridades envolvidas em crimes de guerra.
6. Palestina Livre
O programa defende a autodeterminação do povo palestino e o fim do apoio militar e econômico dos Estados Unidos ao estado de Israel. A questão palestina tornou-se, inclusive, um dos principais elementos de diferenciação das candidaturas socialistas em relação ao establishment democrata.
7. Fim do encarceramento em massa e da imunidade dos policiais
O DSA defende a desmilitarização das polícias, o fim da imunidade que protege agentes envolvidos em violações de direitos e o redirecionamento de recursos para serviços públicos. Propõe ainda tratar a dependência química e a saúde mental como problemas de saúde pública, e não como casos de polícia.
8. Feminism para todas e todos
O programa soma a defesa da igualdade de gênero e da libertação LGBTQIA+ a uma perspectiva de classe. Entre as propostas estão o direito ao aborto, o combate à violência de gênero, o fim da discriminação sexual e o reconhecimento e a valorização do trabalho de cuidado.
9. Taxação dos ricos
A taxação dos ricos aparece como uma das principais medidas de redistribuição de riqueza defendidas pelos socialistas democráticos. O programa propõe impostos mais elevados sobre grandes fortunas e grandes corporações e destina esses recursos ao financiamento de serviços públicos e infraestrutura. A proposta, entretanto, vai além de uma reforma tributária: o DSA defende a democratização da economia e a propriedade pública de grandes corporações e setores estratégicos, colocando áreas essenciais sob controle democrático da população.
10. Democracia no Trabalho
O DSA defende o fortalecimento do poder dos trabalhadores dentro e fora dos locais de trabalho, o que inclui a ampliação do direito de sindicalização e greve, a proteção de quem organiza sindicatos e a democratização das próprias organizações sindicais.
11. Democracia para todos
No campo político, o programa defende a ampliação do direito ao voto, o combate à supressão de eleitores que implementa Trump, e a inclusão de grupos hoje excluídos da participação política. Propõe também mudanças estruturais no sistema político norte-americano, como a ampliação da representação democrática e a redução do poder das grandes empresas e dos financiadores privados sobre as eleições.
Conclusão
O ciclo eleitoral atual tem diferenças importantes em relação ao momento que elegeu o Squad. As primárias de 2026 mostram que a intervenção eleitoral do DSA ingressou em patamar superior. Se a eleição de AOC e demais do Squad em 2018 representou uma ruptura com o cenário estabelecido, hoje a presença de candidaturas socialistas nas disputas norte-americanas deixou de ser um fenômeno isolado.
Há também um crescimento e um enraizamento do DSA que a análise eleitoral, sozinha, não apreende. Oliver Larkin, na Flórida, é um exemplo: obteve 36% dos votos numa disputa difícil contra um deputado democrata que buscava a reeleição, mobilizou milhares de voluntários e forjou uma nova geração militante em um lugar em que o DSA nunca havia participado de uma eleição.
Casos como esse se verificam em todo o território dos EUA. O desempenho dos socialistas democráticos assumiu um formato bem mais próximo de uma alternativa política real aos democratas. Bandeiras como o Medicare for All e o fim do ICE pautaram o debate político norte-americano, o que mostra o espaço e a importância da organização no enfrentamento à extrema direita.
Os desafios da construção de um bloco parlamentar independente e do crescimento do DSA ainda vão se colocar. As eleições de meio de mandato, em novembro, confirmarão o cenário desenhado nas primárias. Mas é nítido que os socialistas e seu programa estão no centro das grandes batalhas em curso.
Quem são as candidaturas socialistas?
Chris Rabb
Deputado estadual da Pensilvânia desde 2016, Chris Rabb construiu sua trajetória com pautas progressistas e de esquerda. Sua candidatura ao Congresso leva ao plano federal um percurso marcado pela defesa de serviços públicos, justiça racial, transporte público e políticas universais.
è o que tem maiores chances de ampliar a presença do DSA no Congresso, sobretudo porque seu distrito, na região da Filadélfia, tem forte predominância democrata.
Claire Valdez
Deputada estadual de Nova York, Claire Valdez é uma das principais representantes da nova geração socialista ligada ao DSA. Sua trajetória política está associada à organização dos trabalhadores, ao movimento sindical e às lutas por moradia.
Entre suas principais bandeiras estão o controle dos aluguéis, a redução da jornada de trabalho e o fortalecimento dos direitos trabalhistas. Vencer as primárias em Nova York é uma das conquistas mais importantes da esquerda socialista neste ciclo.
Darializa Avila Chevalier
Organizadora comunitária afro-latina e integrante do movimento sindical, Darializa é filha de imigrantes dominicanos e construiu sua trajetória em organizações de defesa de imigrantes, no combate ao encarceramento em massa e nas mobilizações pelos direitos palestinos.
Nas primárias, derrotou Adriano Espaillat, no cargo há vários mandatos. A candidatura combina organização comunitária, sindicalismo e uma agenda socialista claramente identificada com os movimentos sociais.
Melat Kiros
Advogada de 29 anos, Kiros é outra repredsentante da nova geração de socialistas. Sua vitória nas primárias democratas do Colorado foi uma das maiores surpresas do ciclo, ao derrotar Diana DeGette, que ocupava o cargo havia décadas.
A campanha defendeu saúde universal, expansão dos serviços públicos, direitos dos trabalhadores, moradia e mudanças nas políticas migratória e externa dos Estados Unidos.
Donavan McKinney
Deputado estadual de Michigan, McKinney tem trajetória em Detroit e na região metropolitana do estado. Derrotou nas primárias o deputado Shri Thanedar, que buscava a reeleição — uma das conquistas mais recentes e importantes do DSA neste ciclo. Defendeu na campanha a classe trabalhadora, o combate ao poder das grandes corporações e o fortalecimento das políticas públicas. A vitória amplia a presença do DSA em Michigan, estado onde Rashida Tlaib já representa a organização no Congresso.
AOC e Rashida Tlaib:
As deputadas nacionais Alexandria Ocasio-Cortez e Rashida Tlaib seguem sendo as duas integrantes do DSA. AOC é, desde sua vitória em 2018, um dos principais símbolos da nova esquerda norte-americana. Sua trajetória levou ao centro do debate nacional propostas como o Green New Deal, a expansão dos serviços públicos, a taxação dos ricos e o fortalecimento dos direitos trabalhistas.
Rashida Tlaib tem uma trajetória profundamente ligada às comunidades trabalhadoras e imigrantes de Michigan. Tornou-se também uma das vozes mais importantes do Congresso na defesa dos direitos palestinos e na crítica à política externa dos Estados Unidos.