Bilionários das Big Tech, Trump e Xi Jin Ping desprezam alertas sobre perigos da IA, enquanto cresce nos EUA oposição a data centers, obras energéticas e corte nos empregos.
Em setembro, o CEO de uma das maiores empresas de inteligência artificial do mundo, a Anthropic, responsável pelo agente IA Claude, fez uma declaração que provocou preocupação dentro e fora do setor de tecnologia: “Se for mal administrada, acredito que a IA poderia representar um risco para a humanidade como um todo.”
A declaração de Dario Amodei foi a fagulha para acender uma intensa discussão nos meios políticos, empresarias, científico-tecnológicos, geoeconômicos e geopolíticos dos Estados Unidos e do mundo. A discussão fundamental, defendida por parte dos executivos e pesquisadores do Vale do Silício, como Amodei, é a necessidade de frear a velocidade das pesquisas e aplicações de IA – para garantir que não se repitam episódios como os ocorridos nos agentes da Open IA, da Meta e da própria Anthropic nos últimos meses, que saíram do controle dos operadores humanos, invadindo sistemas de dentro e for ados EUA (como o banco de dados de saúde da Austrália.)
Trump reagiu à proposta de Amodei com sua proverbial nitidez: “Há uma conspiração DOENTIA em curso contra a IA e os Data Centers, e a única que fica feliz com isso é a China”, escreveu o presidente norte-americano em sua rede social Truth Social. Não vou sufocar o crescimento de algo que será maior do que a revolução industrial ou que a da internet”, disse ele.
Além de dar a menor importância aos perigos de sobrevivência mesma da humanidade, Trump, bilionários, além de Xi Jin Ping, não se comovem para nada, é evidente, pelos impactos sobre os empregos dos trabalhadores e pela disputa em torno da infraestrutura necessária para sustentar a expansão da inteligência artificial – há um grande movimento de comunidade estadunidenses contra a instalação dos data centers.
Discussão vem de longe
A discussão sobre o desenvolvimento, a utilização e a segurança das inteligências artificiais não é recente. Nos Estados Unidos, o debate vem se desenvolvendo, ao menos no campo jurídico e político, desde 2023. Naquele ano, durante a administração de Joe Biden, o governo dos EUA anunciou que sete das principais empresas do setor, Amazon, Anthropic, Google, Inflection, Meta, Microsoft e OpenAI, haviam assumido compromissos voluntários para tornar o desenvolvimento da IA mais seguro. Entre as medidas estavam testes de segurança antes do lançamento de novos modelos, compartilhamento de informações sobre riscos e investimentos em mecanismos de segurança. Era, portanto, um acordo entre governo e empresas sem força de lei, mas que marcou uma primeira tentativa de estabelecer parâmetros comuns para o desenvolvimento da tecnologia.
A partir daquele momento, o Congresso norte-americano intensificou as discussões sobre como o Estado deveria lidar com o avanço da inteligência artificial. O Senado realizou uma série de fóruns com representantes das empresas de tecnologia, pesquisadores, organizações da sociedade civil e trabalhadores para discutir os riscos e as possíveis formas de regulamentação.
Um dos principais resultados desse processo foi o Decreto (Executive Order) 14110, assinada por Biden em outubro de 2023. A ordem estabeleceu uma estrutura federal para lidar com o desenvolvimento e a utilização da IA, com previsões para padrões de segurança para sistemas avançados, avaliações de riscos, maior participação do governo na fiscalização dessas tecnologias e medidas para proteger direitos civis e consumidores. Também abriu uma frente importante sobre o mundo do trabalho, determinando que o governo estudasse os efeitos da automação e da inteligência artificial sobre os trabalhadores e buscasse formas de reduzir seus impactos negativos.
A ordem, entretanto, também apresentava contradições e limitações. Parte importante da estratégia estava concentrada em respostas técnicas a problemas como deepfakes e desinformação, deixando em segundo plano questões mais profundas sobre as relações econômicas e sociais que produzem esses fenômenos. Além disso, ao mesmo tempo em que estabelecia salvaguardas, a política de Biden também incorporava a inteligência artificial à agenda de segurança nacional e defesa.
Essa orientação mudou radicalmente com a chegada de Donald Trump à Casa Branca. Em janeiro de 2025, Trump revogou o Decreto 14110 e passou a colocar no centro da política federal a aceleração do desenvolvimento da IA, a expansão da infraestrutura e a liderança tecnológica dos Estados Unidos. A mudança significou passar a uma política que trata a velocidade de desenvolvimento da tecnologia como uma questão estratégica na disputa econômico-tecnológica com a China.
Um dos símbolos dessa nova orientação foi o anúncio, em janeiro de 2025, do Stargate, projeto envolvendo OpenAI, SoftBank e Oracle. O empreendimento foi anunciado com a previsão de até US$ 500 bilhões em investimentos ao longo de quatro anos para a construção de infraestrutura de inteligência artificial, incluindo grandes data centers. Embora o investimento seja privado, o projeto recebeu forte apoio político e institucional do governo Trump.
A administração também passou a mobilizar diretamente a estrutura federal para acelerar essa expansão. O Departamento de Energia identificou 16 locais federais com potencial para receber data centers e usinas de energia para alimentá-los, com a intenção de utilizar parcerias público-privadas para acelerar a construção.
Em julho de 2025, Trump assinou o Decreto 14318, (Acelerando a Permissão Federal para Infraestrutura de Data Centers), determinando a aceleração do licenciamento de grandes projetos de data centers e da infraestrutura associada. A ordem também abriu caminho para o uso de terras federais, financiamento e incentivos para projetos ditosa “estratégicos”. Determinou também medidas para acelerar a construção de linhas de transmissão, subestações e novas fontes de geração de energia.
Oposição aos datacenters e obras de energia
A questão ambiental tornou-se, nesse processo, um dos principais pontos de tensão. A expansão dos data centers exige enormes quantidades de eletricidade, portanto estruturas de geração e transmissão e água. Comunidades, organizações ambientais e setores do poder público questionam os impactos sobre a rede elétrica, o consumo de recursos naturais e quem deverá arcar com os custos dessa expansão.
A Califórnia adotou uma abordagem diferente, criando mecanismos para limitar determinados usos da tecnologia e proteger trabalhadores. Em setembro de 2025, o estado aprovou o SB 53, o (Lei de Transparência para Inteligência Artifical de ponta), que estabeleceu obrigações de transparência e segurança para grandes desenvolvedores e criou proteção a trabalhadores que denunciem riscos graves relacionados a esses sistemas.
Em 2026, essa disputa avançou diretamente para o local de trabalho. A Lei Nenhum patrão robô (SB 947), aprovado pela Assembleia e pelo Senado da Califórnia, em 30 de setembro, determina que empresas não podem depender exclusivamente de sistemas automatizados para demitir ou punir trabalhadores. Quando a IA for utilizada nessas decisões, deverá haver supervisão e verificação humana, e os trabalhadores deverão ser informados quando sistemas automatizados tiverem participado da decisão. A legislação foi apoiada pela federação sindical da Califórnia, ligada à AFL-CIO, uma das maiores federações sindicais no país.
É justamente nessa contradição que se encontra uma das principais disputas em torno da inteligência artificial nos Estados Unidos. De um lado, o governo Trump trata a expansão da tecnologia como uma corrida estratégica que exige velocidade, investimentos gigantescos e uma infraestrutura capaz de sustentar modelos cada vez mais poderosos. De outro, movimentos sindicais, organizações da sociedade civil e governos estaduais pressionam para que os ganhos de produtividade não sejam obtidos às custas dos trabalhadores, dos direitos sociais e da população que arcará com os impactos da expansão.