A situação política nos EUA mostra que existe espaço para alternativas aos projetos burgueses, tanto republicano quanto democrata. Os resultados dos socialistas democráticos nas primárias estão mostrando que é possível construir campanhas militantes que, vencendo ou não, ajudam a acumular para as lutas que virão.
As eleições internas para definir candidatos (primárias) do Partido Democrata nos Estados Unidos continuam a todo vapor à medida que se aproximam as decisivas eleições parlamentares de novembro, de meio de mandato do Executivo, as midterms. Resultados da disputa na Flórida trazem contribuições importantes para o debate da esquerda socialista, num estado que vivenciou uma mudança drástica no terreno eleitoral no último período. Em 2024, o estado registrou 55% dos votos para Trump, quando até 2020 era um estado considerado disputado entre os partidos Democrata e Republicano.
A empresária e ativista pelo empreendedorismo Angie Nixon, de 42 anos, venceu as prévias para o Senado – será a candidata democrata a uma vaga na Câmara alta. Nixon teve financiamento de US$ 975 mil, contra US$ 16,3 milhões de seu rival, Alexander Vindman, um ex-oficial de segurança do exército apoiado pela direção democrata. Na corrida para a Câmara dos Representantes (deputados nacionais), o socialista Oliver Larkin perdeu a primária democrata pelo 25º distrito da Flórida, obtendo 36,5% dos votos, contra o deputado moderado Jared Moskowitz, apoiado pelo establishment do partido.
Há uma diferença fundamental entre Nixon e Larkin. Embora tenha afirmado recentemente ser membro do DSA, Angie Nixon não se declara socialista, mas social-democrata. Durante a campanha e após sua vitória, ressaltou diferenças em relação às posições do DSA, afirmando, por exemplo, não apoiar o fim do ICE (a temida política migratória). A candidatura de Nixon não recebeu o endosso nacional da organização socialista. Larkin, por sua vez, foi um candidato explicitamente democrático, incorporou os principais eixos programáticos do DSA (Medicare para todos, fim do ICE, taxação dos super ricos, repúdio ao genocídio perpetrado por Israel contra os palestinos etc.) e recebeu seu apoio formal.
Há um debate candente depois da vitória de Zohran Mamdani em Nova York: existe ou não espaço para vitórias do DSA fora dos grandes centros urbanos, onde teriam de enfrentar desafios desconhecidos, em locais nos quais não possuem musculatura militante? Em outras palavras, qual seria o potencial dos socialistas democráticos de buscar maioria social em lugares onde o DSA não está enraizado e não possui uma coluna de quadros mais experimentada?
Os resultados recentes nas primárias ao redor do país são muito animadores. O DSA teve uma sequência de vitórias em primárias do Oregon e Arizona, Geórgia, Nova York, Michigan, Minnesota, Connecticut, Vermont e Washington. Em Michigan, o médico epidemiologista Abdul Al-Sayed conquistou a candidatura democrata ao Senado, derrotando um adversário alinhado com o establishment democrata e se tornou um símbolo da potencialidade das pautas prioritárias dos socialistas democráticos: oposição à polícia migratória, o Medicare para todos, a posição pró-Palestina e o enfrentamento à elite econômica, o mesmo conjunto de propostas apresentadas pela candidatura de Oliver Larkin.
Em contrapartida, no Wisconsin, a socialista democrática Francesca Hong foi derrotada nas primárias por cerca de 3 mil votos na disputa pela indicação ao governo do Estado. Apresentando sem medo uma política anti-ICE e antineoliberal, mobilizando a militância em 62 das 72 cidades do estado e milhares de voluntários, construindo uma campanha com uma capilaridade impressionante, Hong perdeu por pouco num dos estados que podem decidir as eleições, os chamados estados-pêndulo. A derrota de Hong foi amplamente discutida na imprensa e na sociedade, pelo fato de ter liderado as pesquisas durante boa parte do período antes da votação das prévias, sendo apresentada como um símbolo dos limites do DSA.
Por que os exemplos mais recentes da Flórida são tão simbólicos e podem ajudar a apontar algumas possíveis conclusões? Nas primárias democratas, em grande parte das disputas, se enfrentaram três projetos políticos: candidaturas ligadas ao establishment democrático, uma ala do Partido Democrata que ficou conhecida como “progressista” e, por fim, as candidaturas do Democratic Socialists of America. Na Flórida essa disputa se deu em um terreno em que a batalha contra Trump e o MAGA é muito árdua. Então, a pergunta se torna: qual é o projeto que vai derrotar, ao menos no terreno eleitoral, o projeto neofascista de Trump?
Se por um lado a candidatura de Angie Nixon mostrou que existe espaço político para um projeto que enfrente o establishment do Partido Democrata, animando setores importantes como as populações não brancas e trabalhadores com menor grau de estudo e derrotando um oponente do sistema com muito mais orçamento, a candidatura de Oliver Larkin, que mesmo sendo derrotada, apresentou um nível de crescimento organizativo surpreendente: foram mais de 500 voluntários registrados, 600 mil ligações telefônicas para mobilização, e 45 mil visitas domiciliares. Isso tudo com um núcleo do DSA que tinha pouca ou nenhuma experiência, como muito bem colocou o coordenador da campanha, Zach Bofshever, em declaração ao site do DSA.
Nixon mostra que existe espaço eleitoral para romper com o establishment democrata (mesmo de forma mais parcial) em terrenos profundamente marcados pelo trumpismo. Hong mostra que uma campanha socialista pode construir uma presença territorial ampla e chegar muito perto de uma vitória estadual. Larkin mostra que uma derrota pode se dará apesar de elementos que uma eleição isolada não mede: organização, quadros, milhares de pessoas mobilizadas e uma experiência coletiva de luta.
Uma das possíveis conclusões nesse cenário é oposta ao que dizem os gigantes da mídia burguesa americana. A derrota de Hong não mostra o limite da política dos socialistas democráticos; é um sinal do quanto ainda é possível se alcançar, sintoma semelhante ao que foi visto com Larkin. A construção de um programa socialista, com enraizamento na classe em sua nova configuração, é um elemento central para os futuros embates com a extrema direita – não só eleitorais, mas também nas lutas. Ao mesmo tempo, a vitória de Nixon não significa que a suavização do discurso do DSA é o caminho, mas sim do quanto o espaço político para um discurso contra o establishment, seja socialista ou mais moderado, pode alcançar. A situação política mostra que existe espaço para alternativas, e os socialistas democráticos estão mostrando que é possível construir campanhas militantes, que vencendo ou não, apontam uma importante lição para aqueles que lutam.