Zohran Mamdani, o prefeito de Nova York, anunciou na semana passada seu apoio a um projeto de Lei que põe fim às subcontratações realizadas por grandes plataformas, como a Amazon. O Delivery Protection Act (Lei de Proteção aos Entregadores), de autoria da vereadora Tiffany Cabán, exige que determinados centros de distribuição obtenham uma licença da cidade e estabelece que as empresas responsáveis por essas instalações empreguem diretamente os trabalhadores que exercem atividades essenciais, como o transporte e a entrega de encomendas, o que acaba com o modelo de terceirizações das gigantes do e-commerce. Mamdani anunciou sua posição nas redes sociais do prefeito e rapidamente o debate tomou a internet. O projeto já tem o apoio da ampla maioria dos vereadores, conta com o respaldo dos sindicatos, mas a pressão das grandes empresas tem sido capaz de travar a discussão. Com o anúncio de Mamdani, está claro que não será mais possível para o lobby empresarial evitar esse debate. 

O Delivery Protection Act estabelece padrões mínimos de segurança e treinamento, exige o registro das condições de trabalho e responsabiliza as empresas pelas cotas de produtividade, horários e rotas que determinam a forma como os entregadores trabalham. Além disso, prevê mecanismos de proteção contra demissões injustas e retaliações e dá ao Departamento de Proteção ao Consumidor e ao Trabalhador (DCWP) poderes para fiscalizar e suspender licenças em caso de violações. Em resumo, o projeto busca fazer com que as grandes empresas que controlam e lucram com a operação também sejam diretamente responsáveis pelos trabalhadores e pelos riscos que ela impõe à cidade.

Relatório de Brad Lander, controlador da cidade, publicado em novembro de 2025, sob o título Fast Shipping, Slow Justice (Entrega rápida, justiça lenta), mostrou um impressionante aumento no número de entregas realizadas por dia – que passaram de 1,8 milhão em 2019, para 2,5 milhões em 2024. A segredo das plataformas, para alcançar esses números, é justamente a subcontratação de empresas que realizam o último trecho de entrega, o chamado de last mile delivery. O mesmo relatório registra um salto de 78% nos acidentes de trânsito nas regiões perto dos armazéns-depósitos de entrega. 

Esses dados são ainda mais preocupantes se somados aos relatos dos trabalhadores dessas empresas subcontratadas. Em entrevista para o The Progressive, uma trabalhadora relatou que para muitos deles e delas as condições são inadequadas: faltam equipamentos de trabalho e manutenção de seus caminhões. Ao mesmo tempo o modelo de contratação utilizado permite que as empresas escapem de uma série de regulações, como remuneração mínima e uma série de direitos trabalhistas.

Os entregadores são umas das categorias com maior sindicalização nos últimos anos na cidade. Em abril de 2022, mais de 5 mil trabalhadores da Amazon conquistaram o direito à formação de seu sindicato em Staten Island, e muitos outros foram criados no último período. Se de um lado temos empresas gigantes buscando formas de precarizar o trabalho, de outro temos um avanço da organização e da luta desses trabalhadores, tendo o Delivery Protection Act como um dos frutos desse processo. É aqui que o apoio de Zohran Mamdani tem um significado central.

Apresentado em 2023, o projeto já conta com apoio de 35 dos 51 vereadores. No entanto, desde abril não há avanços na tramitação. Ocorreu apenas uma audiência, marcada pela mobilização dos sindicatos e pela pressão do lobby patronal – que foi capaz de travar o processo até agora. Mas se abre uma nova janela de pressão após o apoio do prefeito de Nova York, e o mais importante: o apoio fortalece não só a luta pelo Delivery Protection Act, mas sinaliza que Zohran está disposto a enfrentar as grandes empresas e tomar o lado da mobilização dos sindicatos.

Impossível saber qual será o desfecho dessa luta. Mas é muito animador constatar que os trabalhadores organizados, de um setor tão central quanto o das entregas, enfrentar a precarização e o poder de uma das maiores empresas do planeta, ao mesmo tempo em que encontra respaldo na primeira experiência de um prefeito abertamente socialista democrático no coração do império.